Alexandre GuilhermeColunaLendas

A Astúcia

Ser corajoso não é correr atrás do outro, nem apertar o defunto guardado. Às vezes, a verdadeira coragem está em saber esperar, observar e agir no momento certo.

 

Há algumas décadas, um leão dizia ser o dono do pedaço. Tudo estava sob seu comando, e os animais do reino lhe deviam obediência.

 

O melhor filé da caça era sempre destinado à sua oligarquia faminta. O leão nunca caçava. Esperava que suas esposas saíssem pela mata, enfrentassem os perigos e trouxessem o banquete para sua mesa. Seus filhotes cresciam submetidos à sua vontade e, aquele que ousasse pensar diferente, era lançado ao ninho das serpentes.

 

Certo dia, uma hiena e seu amigo papagaio, vindos de uma terra distante, pediram alguns dias de abrigo no reino do leão.

 

O leão aceitou acolher os dois forasteiros, mas impôs uma condição: teriam de trabalhar para ele e comer apenas o que sobrasse do seu banquete — praticamente nada.

 

O papagaio ficaria encarregado de pentear a juba do rei. A hiena deveria buscar água e servi-la ao leão.

 

O papagaio tagarela e a hiena risonha não tiveram alternativa. Aceitaram o trabalho.

 

Os dias passaram, e a fome aumentava. Não sobrava comida para os dois. Enquanto isso, o leão continuava governando todos com seu poderoso rugido.

 

Foi então que os dois amigos tiveram uma ideia.

 

— Precisamos tirar desse leão aquilo que o mantém no poder — disse a hiena.

 

— O rugido? — perguntou o papagaio.

 

— Exatamente.

 

O papagaio passou a conquistar cada vez mais a confiança do leão com suas piadas e histórias. A hiena, por sua vez, começou a dizer que era uma cozinheira extraordinária e que conhecia receitas que só eram servidas à nobreza.

 

O leão ficou empolgado.

 

— Então prepare um banquete para mim! — ordenou.

 

A hiena sorriu.

 

— Farei minha especialidade: carne recheada ao molho.

 

Enquanto preparava o prato, pensou:

 

“Como vou calar o rugido desse leão?”

 

Então teve uma ideia.

 

— Papagaio, vá buscar a fruta de nossa terra. A mangaba. Ela será o tempero especial do prato.

 

O papagaio entendeu imediatamente.

 

Voou até longe e, ao retornar, trouxe a mangaba.

 

A hiena preparou a carne e recheou seu interior com o leite da fruta. O leão, ansioso, começou a saborear o banquete.

 

Comeu uma garfada.

 

Depois outra.

 

E mais outra.

 

Até que, de repente, seu rugido começou a desaparecer.

 

O poderoso leão tentou rugir.

 

Nada.

 

Tentou novamente.

 

Apenas um som fraco saiu de sua boca.

 

Naquele instante, o trono que parecia tão poderoso começou a desabar.

 

O reino percebeu que, sem o rugido, o leão já não parecia tão poderoso assim.

 

O papagaio e a hiena aproveitaram a confusão e fugiram para longe.

 

Mas a astúcia teve seu preço.

 

Na fuga, a hiena ficou banguela, e o papagaio perdeu suas penas.

 

Os dois chegaram à sua terra cansados, machucados, mas livres.

 

E aprenderam uma grande lição:

 

**Nem tudo se conquista no grito.**

 

**Há batalhas que não são vencidas pela força, mas pela inteligência.**

 

**Porque, quando a astúcia entra em cena, até o rugido mais poderoso pode se calar.**

 

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