A Astúcia

Ser corajoso não é correr atrás do outro, nem apertar o defunto guardado. Às vezes, a verdadeira coragem está em saber esperar, observar e agir no momento certo.
Há algumas décadas, um leão dizia ser o dono do pedaço. Tudo estava sob seu comando, e os animais do reino lhe deviam obediência.
O melhor filé da caça era sempre destinado à sua oligarquia faminta. O leão nunca caçava. Esperava que suas esposas saíssem pela mata, enfrentassem os perigos e trouxessem o banquete para sua mesa. Seus filhotes cresciam submetidos à sua vontade e, aquele que ousasse pensar diferente, era lançado ao ninho das serpentes.
Certo dia, uma hiena e seu amigo papagaio, vindos de uma terra distante, pediram alguns dias de abrigo no reino do leão.
O leão aceitou acolher os dois forasteiros, mas impôs uma condição: teriam de trabalhar para ele e comer apenas o que sobrasse do seu banquete — praticamente nada.
O papagaio ficaria encarregado de pentear a juba do rei. A hiena deveria buscar água e servi-la ao leão.
O papagaio tagarela e a hiena risonha não tiveram alternativa. Aceitaram o trabalho.
Os dias passaram, e a fome aumentava. Não sobrava comida para os dois. Enquanto isso, o leão continuava governando todos com seu poderoso rugido.
Foi então que os dois amigos tiveram uma ideia.
— Precisamos tirar desse leão aquilo que o mantém no poder — disse a hiena.
— O rugido? — perguntou o papagaio.
— Exatamente.
O papagaio passou a conquistar cada vez mais a confiança do leão com suas piadas e histórias. A hiena, por sua vez, começou a dizer que era uma cozinheira extraordinária e que conhecia receitas que só eram servidas à nobreza.
O leão ficou empolgado.
— Então prepare um banquete para mim! — ordenou.
A hiena sorriu.
— Farei minha especialidade: carne recheada ao molho.
Enquanto preparava o prato, pensou:
“Como vou calar o rugido desse leão?”
Então teve uma ideia.
— Papagaio, vá buscar a fruta de nossa terra. A mangaba. Ela será o tempero especial do prato.
O papagaio entendeu imediatamente.
Voou até longe e, ao retornar, trouxe a mangaba.
A hiena preparou a carne e recheou seu interior com o leite da fruta. O leão, ansioso, começou a saborear o banquete.
Comeu uma garfada.
Depois outra.
E mais outra.
Até que, de repente, seu rugido começou a desaparecer.
O poderoso leão tentou rugir.
Nada.
Tentou novamente.
Apenas um som fraco saiu de sua boca.
Naquele instante, o trono que parecia tão poderoso começou a desabar.
O reino percebeu que, sem o rugido, o leão já não parecia tão poderoso assim.
O papagaio e a hiena aproveitaram a confusão e fugiram para longe.
Mas a astúcia teve seu preço.
Na fuga, a hiena ficou banguela, e o papagaio perdeu suas penas.
Os dois chegaram à sua terra cansados, machucados, mas livres.
E aprenderam uma grande lição:
**Nem tudo se conquista no grito.**
**Há batalhas que não são vencidas pela força, mas pela inteligência.**
**Porque, quando a astúcia entra em cena, até o rugido mais poderoso pode se calar.**
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