O Feitiço

O ritmo de um som sempre conduz os laços de uma história, ouvida pela planície de uma tela seca. Ao caminhar pela chuva da cidade de Centopeia, um morador encontra uma taberna cheia de cantoria, que o faz entrar e lembrar de sua infância.
Ele, com dez anos de idade, criado de forma solitária pela avó, sonhava em cantar para o presidente de sua terra. Mas como isso seria possível? Após o trauma da perda de sua mãe, ele não conseguia mais soltar a voz. Vendia frutas na rua para ajudar no sustento de casa. Sua avó, que o criava, era lavadeira, e as escolas não o aceitavam.
Em suas andanças para vender frutas, ele encontra um senhor que lhe diz ser um feiticeiro. O homem fala ao menino que poderia lhe dar tudo o que desejasse, pois era o senhor do tempo.
Porém, o feiticeiro impõe uma condição:
— Para você ter sua voz e poder cantar, quero algo em troca: a sua honestidade.
O menino pensa por um instante e, sem rodeios, concorda com o acordo.
Então o feiticeiro diz:
— Prepare-se para a mudança de sua vida.
Ele entrega ao menino uma capanga e orienta:
— Seu presente está aqui dentro. Quando eu for embora, coloque a mão e pegue-o. Mas não se esqueça: sua honestidade agora me pertence.
Assim que o feiticeiro vai embora, o menino, apressado, enfia a mão na capanga. Sente uma picada e um calafrio. De repente, começa a gritar. De dentro da bolsa, sai uma urutu. O menino entra em delírio… e então, começa a cantar como um belíssimo violino.
Ele abandona sua avó e sai pelo mundo, cantando. Cresce e esquece a honestidade que ela lhe ensinou. Sua voz encanta a todos, mas ele joga seu caminho correto no lixo, perdendo-se ao longo da vida.
Certo dia, descobre que sua avó está no leito de morte. Por causa de suas escolhas, existe agora um grande abismo entre eles. Sentindo saudade, ele chama pelo feiticeiro.
O feiticeiro aparece.
O homem pede para voltar à vida que tinha quando criança. O feiticeiro responde que é possível — pode devolver até sua honestidade —, mas exige algo em troca: a visão do jovem.
Sem hesitar, ele aceita. Diz que pode levar sua visão, pois deseja apenas se despedir de sua avó.
Em um instante, ele está ao lado dela. Sua voz desaparece novamente, mas, por meio de gestos, pede perdão. Sua avó o abençoa… e parte.
Após o enterro, ele adormece. Quando acorda, já não vê mais o sol. Porém, com o tempo, começa a enxergar com os olhos do coração.
E então compreende que o maior de todos os sonhos… era ser ele mesmo.
Escrito por Alexandre Guilherme
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