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Bets deixam rastro de endividamento e problemas de saúde entre brasileiros

Famílias perderam R$ 62,5 bilhões em apostas em 2025; especialistas apontam aumento da dependência, ansiedade e risco de agravamento da saúde mental

O avanço das apostas on-line deixou um rastro de perdas financeiras e problemas de saúde entre brasileiros. Somente em 2025, as famílias perderam R$ 62,5 bilhões para as plataformas de apostas, considerando a diferença entre o dinheiro apostado e o valor devolvido em prêmios.

O volume equivale a uma média de R$ 4,7 bilhões por mês no período analisado. Entre outubro de 2024 e março de 2026, as plataformas movimentaram quase R$ 351 bilhões em transações realizadas por Pix.

O impacto financeiro veio acompanhado de consequências para a saúde. Profissionais que atendem pessoas com dependência em jogos relatam casos de ansiedade intensa, isolamento social, desesperança e agravamento de problemas emocionais provocados pelas dívidas.

Um dos casos relatados é o de um homem de 42 anos, morador do interior de Goiás, que perdeu carro, casa e emprego depois de acumular dívidas com apostas. Afastado da família por medo de ameaças relacionadas a dívidas com agiotas, ele passou a receber atendimento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).

Apostas começaram a atingir adolescentes

A facilidade de acesso às plataformas também ampliou a exposição de jovens. Pesquisa realizada com 1.912 estudantes de 191 escolas brasileiras apontou que 20,4% dos alunos dos anos finais do ensino fundamental e do ensino médio disseram ter feito apostas on-line no último ano.

Entre os entrevistados com 11 anos, 9,5% afirmaram já ter apostado.

Especialistas explicam que adolescentes apresentam maior vulnerabilidade aos mecanismos de recompensa das apostas porque áreas do cérebro responsáveis pelo controle de impulsos e pela avaliação de riscos ainda estão em processo de amadurecimento.

Falhas na proteção dos usuários

Embora as apostas tenham sido regulamentadas no Brasil a partir de 2023, especialistas apontam que mecanismos previstos para proteger jogadores compulsivos não foram efetivamente suficientes para impedir a progressão da dependência.

Entre as regras estava a necessidade de restringir o acesso de usuários identificados como compulsivos. Também foram estabelecidas exigências de publicidade e alertas sobre os riscos associados às apostas.

A facilidade de acesso, porém, manteve o jogo disponível praticamente durante todo o dia, diretamente pelo celular.

Saúde mental entra no centro da discussão

Profissionais de saúde relatam que parte dos pacientes chega aos serviços especializados depois de acumular prejuízos financeiros significativos. Em situações mais graves, aparecem pensamentos relacionados à morte e episódios de tentativa de suicídio.

O Sistema Único de Saúde (SUS) ampliou, em agosto, os teleatendimentos destinados a pessoas com problemas relacionados às apostas on-line.

A orientação dos especialistas é que familiares e amigos estejam atentos a mudanças de comportamento, isolamento, ansiedade, aumento do consumo de álcool e manifestações de desesperança.

O governo federal anunciou novos esforços para identificar apostadores com comportamento compulsivo e oferecer acompanhamento e tratamento. A estratégia prevê o uso de informações compartilhadas entre órgãos federais para localizar pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

O cenário coloca as apostas on-line não apenas como uma questão financeira, mas também como um problema de saúde pública, diante do impacto causado pela dependência em milhares de famílias brasileiras.

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