
Entidades da sociedade civil alertam que conflitos entre instituições dominam a agenda pública a poucas semanas do primeiro turno e reduzem espaço para temas estratégicos do país
A escalada da crise político-institucional em Brasília passou a ocupar o centro do debate público e, a menos de um mês do primeiro turno das eleições, tem deixado em segundo plano as propostas dos candidatos para enfrentar os principais problemas do país.
A avaliação é compartilhada por entidades da sociedade civil, que apontam preocupação com a perda de espaço de temas como educação, ciência, desenvolvimento econômico, meio ambiente, relações de trabalho e soberania nacional.
Para representantes dessas organizações, os conflitos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR) precisam ser devidamente apurados, mas não deveriam monopolizar a agenda eleitoral.
A presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Samira de Castro, avalia que a crise institucional prejudica diretamente a qualidade do debate eleitoral. Na avaliação dela, a atenção da sociedade está concentrada nos acontecimentos envolvendo as instituições, enquanto projetos para o país perdem visibilidade.
A presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Garcia, também chama atenção para o impacto da crise. Para ela, questões relacionadas à ciência, ao desenvolvimento e à necessidade de políticas públicas de longo prazo precisam voltar ao centro da discussão.
Educação, economia e trabalho
O coordenador honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, considera a eleição de 2026 especialmente importante diante das transformações econômicas e das mudanças no cenário internacional.
Segundo ele, temas como desenvolvimento econômico, soberania, educação, ciência, tecnologia e defesa deveriam ter maior presença nos programas de governo.
A pauta trabalhista também perdeu espaço. Entre os assuntos apontados como prioritários estão o fim da escala 6×1, geração de emprego e renda e regulamentação das relações de trabalho no setor público.
A presidente do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, afirma que discussões que vinham avançando até o fim de agosto foram prejudicadas pela mudança de foco provocada pela crise institucional.
Meio ambiente e minerais estratégicos
As mudanças climáticas aparecem entre os temas que, na avaliação das entidades, receberam atenção insuficiente durante a campanha.
O secretário executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, alerta para os efeitos econômicos e sociais de eventos extremos, como secas e enchentes. Além dos impactos sobre a população, fenômenos desse tipo pressionam os cofres públicos e afetam setores como agricultura e infraestrutura.
Outro assunto considerado estratégico é a exploração de minerais críticos e terras raras. O setor é visto como fundamental para áreas como tecnologia, indústria e transição energética, além de estar diretamente relacionado à soberania econômica do país.
As entidades também defendem maior atenção aos direitos dos povos indígenas e à participação dessas populações nas decisões relacionadas à exploração de recursos naturais.
Crise não pode substituir debate
Apesar das divergências sobre a condução dos episódios envolvendo as instituições, os representantes ouvidos defendem que eventuais irregularidades sejam investigadas com transparência, direito de defesa e respeito às competências constitucionais.
A preocupação é que a disputa institucional transforme a eleição em um plebiscito sobre conflitos entre autoridades, deixando em segundo plano a comparação entre projetos de governo.
Com o primeiro turno marcado para 4 de outubro, a avaliação das entidades é que o eleitor precisa ter acesso a informações suficientes para comparar propostas e decidir sobre os rumos do país nos próximos anos.






