Alexandre GuilhermeColunaLendas

O campo

A medida certa tem um espanto de panela cheia, de algo que termina nas corredeiras da necessidade, do ato que surpreende o patamar do repelente sobre a vaidade da verdade que arde na cavidade da metanoia, retocada num saco de estopa como uma argamassa decorada por suas culpas, mastigadas entre a prática que retardava a esperança de farto acervo, o suficiente do declínio da convalescença.

 

Entre paredes imaginárias que o sustentam, no meio de um campo que revalida a partida que começa, sempre espera a presença do salvador da pátria, aquele que vai salvar a prata e transformá-la em ouro sobre a população. Tudo é a continuação de que algo foi plantado, num resgate de ser um delírio maravilhoso, mesmo que seja por pouco tempo, por míseras horas.

 

Em um campo de terra com chão batido, entre lamas e poeiras, com uma bola de meia ao centro, brotavam tantas jogadas. Ali nascia uma criança franzina, de pernas tortas, que na maioria das vezes não sabia o que era um prato de comida. Sua casa de tábua comportava mais vinte e dois irmãos. Ele era o caçula de uma toada sofrida sobre suas costas, mas, apesar de tudo, era uma família unida, de corações aquecidos em sentimentos fraternos, sobre o medo do tédio, tornando-se uma família guerreira. Sua mãe já era de idade avançada e seu pai já era falecido.

 

Os olhos dessa criança brilhavam com a magia que a bola despertava no campo entre os jogadores. Ela flutuava sobre as gramas macias com suas chuteiras cromadas de fantasia, enriquecendo da noite para o dia. Tudo se apresentava na tela da TV, que ele observava do meio da rua, como fumaça que assediava seus eternos sonhos. Essa criança se reunia todos os dias naquele campo miserável, com outras crianças da comunidade, tão desprezadas quanto ele na sobrevivência. Mas eles tinham a riqueza da alegria vivida. Seus irmãos já viviam na labuta, vendendo balas por aí. O que ganhavam era mixaria, que nem aliviava a anestesia da carcaça sofrida.

 

Mas essa criança tinha o sonho de chegar ao auge da jogada e brilhar em vários campos do mundo, assim como via os jogadores na TV. Tudo parecia um conto de fadas, e ele treinava e sonhava ser um salvador da pátria para toda a família e para a comunidade massacrada pelo sistema. Um empresário o vê jogando, e o tão esperado momento chega: é hora de sua estrela brilhar. Todos ficam encantados ao vê-lo jogar, com seu jeito leve sobre a arte que o engrandece. Ele começa a ganhar fama e dinheiro, passa a ser assediado por todos e consegue dar uma vida melhor para sua família e alguns ao seu redor.

 

Mas ele viu que algo estava estranho em seu caminho, e a beleza não era tão florida como parecia. A cobrança aumentava a cada dia, tudo pelo interesse ao seu redor: empresários, times de futebol e a representação do seu país na Copa do Mundo. Seu corpo era usado como máquina, e até como marca por aqueles que o sugavam.

 

Seu corpo foi se desgastando. Caminhava à base de morfina e outras fórmulas para mantê-lo de pé jogando. Ele não queria continuar, mas, devido aos contratos e ao interesse de toda uma cúpula, foi sendo sugado, até que, aos vinte e cinco anos, seu corpo não aguentou mais. Ele cai no maior campo do mundo. Seu corpo não aceita mais o jogo proibido.

 

Ele volta para os braços de sua família, num leito oprimido, sem sorrisos, apenas as lembranças escorridas em sua memória de quando era uma criança feliz, sem verniz. O resto ao seu redor, que tanto lhe retirou, não o visita nem liga. As pessoas que tanto admiravam suas jogadas nem sequer se lembram de sua magia, pois ele foi jogado para escanteio. A memória de muitos é curta, e hoje seu suporte são apenas alguns membros de sua família.

 

Escrito por Alexandre Guilherme

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