Conto: O Vaqueiro Planetário

Sem pretender ser o centro cósmico de qualquer revelação mística, entre os videntes e os elementos que dão forma à existência, vagueava por entre vidros dissolvidos e limites plasmáticos, esticados como membranas de uma realidade prestes a se romper. Sua silhueta, fina e distante, parecia um cometa atravessando o silêncio de um dilúvio sideral.
Era como um vaqueiro de um tempo dourado, carregando seu roupão batizado nas labaredas de um fogo azedo, nascido das entranhas de um universo adulterado. Seguia entre lamentos de um silêncio amarelado, como se cada passo despertasse as lembranças de uma eternidade esquecida.
Vestido de cores e cravos, envolto em radicalismos que desafiavam o próprio temor de sua existência, contemplava o espectro de um mundo escalonado em tonalidades desconhecidas. Sua montaria, guardada como um segredo ancestral, conduzia-o na condição de guerreiro do espaço, sobre um cometa de extremidades floridas. Em sua trajetória, revalidava as ligas das estrelas sobreviventes, aquelas que ainda resistiam à ausência de brilho permanente, diante da morte carnal e do suplício dos mortais.
Certo dia, o vaqueiro atravessou um planeta pródigo em um frio enfeitiçado. Ali, o campo magnético parecia aprisionar todas as coisas, impedindo que seus habitantes se despissem das velhas vestimentas. Cada ser estava conectado a uma força metafísica cortante, semelhante ao fio de uma navalha que sustentava os alicerces daquele mundo. Toda a energia se concentrava em um imenso funil de meteoros ardentes, como se o próprio planeta estivesse condenado a alimentar uma tempestade sem fim.
Por pertencer a outra esfera galáctica, o vaqueiro começou a se desfazer lentamente. Seu corpo estremecia como ventos rachados de um purgatório oco, mas, por mais que tentasse, não conseguia escapar daquele vazio repleto de metáforas conturbadas. Havia algo naquele ambiente que rasgava as sobras de sua consciência, confundindo suas metas e aprisionando-o em uma convivência de ruídos e frequências desconhecidas.
Compreendeu, então, que precisava se desligar por inteiro. Era necessário libertar o espírito arredio de seu cárcere interior, romper as correntes invisíveis que carregava nos ventos de um soneto vermelho, escondido nas profundezas do subconsciente.
O esforço foi imenso. Depois de atravessar os venenos daquele mundo, finalmente conseguiu partir. Contudo, sua fuga não lhe devolveu a essência original. Já não era o mesmo diante dos seres de luz. Sua aura havia sido marcada por uma cadeia retalhada de experiências, sufocando a antiga identidade que ressoava como uma frequência própria da Via-Láctea.
A partir daquele instante, foi obrigado a existir como uma espécie de esfinge em constante aprendizagem, sem respostas definitivas ou margens que lhe oferecessem conforto. Tornara-se um ser incompleto, carregando na própria existência as cicatrizes de uma fortaleza que precisaria reconstruir sozinho.
Talvez sua verdadeira grandeza não estivesse em dominar os planetas, tampouco em conquistar as estrelas, mas em reconhecer a força necessária para continuar galopando depois de tantas metamorfoses.
E assim seguiu, deixando para trás o rastro galopante de sua passagem, como uma fera que aprendera a sobreviver sem perder completamente a memória de sua liberdade.
Pois somente no planeta de sua origem, onde o universo ainda guardava vestígios de sua antiga essência, poderia voltar a ser aquilo que sempre fora: um vaqueiro indomável, domesticado apenas pelas próprias cicatrizes e iluminado pela chama sobrevivente de sua existência.
Escrito por Alexandre Guilherme
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