Alexandre GuilhermeColunaLendas

Conto: O Ostensório

O furo das estrelas espalhava-se na surdina do vazio, como se o universo escondesse, entre suas corredeiras nervosas, os segredos de uma existência ainda não compreendida. Havia algo de inquietante naquela imensidão, algo que atravessava as vertigens da mente e repousava sobre os limites da demência, espiritualizando os delírios de quem já não encontrava sentido na própria caminhada. Era como se até mesmo a morte guardasse uma pequena claridade, capaz de iluminar aquilo que a vida insistia em manter escondido.

Um juramento pode ser o advento de um pedido perfeito, mas, quando a ganância recalcula os caminhos da consciência, até mesmo o abrigo mais seguro se transforma em esconderijo para a perversidade. O homem, em sua jornada desvairada, aperfeiçoava-se na arte de roubar, perseguindo o ouro e a prata como se a riqueza fosse capaz de preencher o vazio que carregava por dentro. Era consumido por um verme invisível, que devorava seus sentimentos sem produzir sequer um gemido. Sua alma parecia uma célula equipada com as aparências da beleza, mas aprisionada no cinismo de uma existência automatizada.

Aquele ladrão era especialista no roubo de relíquias religiosas. Estudava cuidadosamente os lugares, observava seus costumes e identificava as fragilidades de cada construção. Os templos eram seus principais alvos. Para alcançar seus objetivos, não hesitava em assumir a aparência de um fiel ou até mesmo de um sacerdote. Sua devoção era uma representação teatral, e sua única oração consistia em descobrir onde estavam escondidos os objetos de maior valor. O brilho dos metais preciosos era seu verdadeiro altar.

Certo dia, chegou a uma pequena cidade do interior, pouco conhecida e quase esquecida nos mapas do estado. O lugar possuía menos de cinco mil habitantes e parecia viver distante das grandes transformações do mundo. Suas ruas tranquilas, suas casas simples e a modesta condição de seus moradores não despertaram, inicialmente, grande interesse no visitante. Caminhou por diversos lugares, procurando alguma oportunidade que justificasse sua presença, até encontrar uma pequena capela construída de adobe, com paredes envelhecidas e um altar bastante simples.

Decidiu participar de uma celebração religiosa. Entrou discretamente, misturou-se aos fiéis e assumiu uma postura de respeito. Enquanto os moradores rezavam, seus olhos percorriam cada detalhe do ambiente, calculando silenciosamente as possibilidades de um futuro roubo. Foi então que avistou uma pequena peça de ouro sobre o altar. Seu brilho parecia diferente de tudo o que já havia encontrado. Tratava-se de um ostensório, objeto sagrado utilizado para expor a hóstia consagrada. O ladrão ficou fascinado.

Naquela mesma noite, retornou à capela. A madrugada oferecia o silêncio necessário, e a simplicidade da construção facilitava sua entrada. Sem encontrar grandes obstáculos, aproximou-se do altar, apoderou-se do ostensório e desapareceu na escuridão.

Depois de caminhar por algum tempo, encontrou abrigo em uma caverna afastada da cidade. Ali, imaginava estar protegido de qualquer perseguição. Entretanto, havia algo naquela peça que não conseguia compreender. O ostensório parecia guardar uma luminosidade que ultrapassava o simples reflexo do ouro. Mesmo na escuridão da caverna, seu brilho parecia permanecer vivo, como se alguma presença invisível habitasse seu interior.

Enquanto isso, a população descobriu o desaparecimento da relíquia e iniciou uma procura desesperada. O pequeno município estava comovido. Para aquelas pessoas, o ostensório não representava apenas um objeto de ouro, mas uma parte importante da história e da fé da comunidade.

O ladrão, por sua vez, não conseguia afastar os olhos da peça. Passava horas observando-a, até que começou a perceber uma imagem em seu interior. Era o vulto de um homem de barba e cabelos compridos, cuja fisionomia parecia surgir de dentro do próprio brilho do ostensório.

Assustado, esfregava os olhos, desviava o olhar e tornava a observar. A imagem continuava ali. Começou a acreditar que estivesse enlouquecendo, talvez por causa das noites mal dormidas ou das doses de cachaça que consumia para silenciar os próprios pensamentos. Mas, por mais que tentasse ignorar aquela aparição, o rosto insistia em retornar.

Incomodado com o fenômeno, decidiu encontrar um comprador distante, alguém que pudesse adquirir a peça sem fazer perguntas. Queria livrar-se daquele objeto o mais rápido possível. Depois de acertar a negociação, dirigiu-se à caverna para buscar o ostensório.

Ao retirá-lo do esconderijo, fixou novamente os olhos em seu interior. A imagem estava lá. O mesmo rosto, a mesma expressão serena. Dessa vez, porém, algo diferente aconteceu: o homem sentiu uma estranha familiaridade naquela fisionomia. Seu coração acelerou. Tomado pela curiosidade, decidiu abrir cuidadosamente a peça de ouro.

Foi quando encontrou a hóstia consagrada.

Mas não era apenas a presença da hóstia que o havia surpreendido. Naquele instante, contemplou novamente o rosto que tanto o perturbava e reconheceu nele a fisionomia de seu pai.

Um silêncio profundo tomou conta da caverna.

Seu pai havia sido um homem de fé, daqueles que carregam a religiosidade não apenas nas palavras, mas na maneira de viver. Por meio de suas orações e de sua dedicação à espiritualidade, havia ajudado muitas pessoas enfermas, inclusive sua própria mãe. Era um homem simples, cuja maior riqueza parecia estar na capacidade de acreditar e fazer o bem.

A lembrança daquele homem atravessou os anos de afastamento como uma flecha. O ladrão recordou a infância, os conselhos, as orações e os momentos em que ainda existia amor dentro de sua casa. Havia muito tempo que rompera os laços com os pais, abandonando não apenas a família, mas também tudo aquilo que um dia lhe ensinara a distinguir o certo do errado.

Pela primeira vez em muitos anos, sentiu vergonha de si mesmo.

As lágrimas começaram a escorrer. Não eram lágrimas de medo, tampouco de arrependimento passageiro. Eram lágrimas de saudade. Aquele rosto havia despertado algo que nem mesmo o ouro mais precioso conseguira comprar: a memória de quem ele havia sido antes de se transformar no homem que agora contemplava.

Naquela noite, tomou uma decisão.

Retornou escondido à pequena capela e colocou cuidadosamente o ostensório sobre o altar, exatamente onde o havia encontrado. Ao lado da peça, deixou um pequeno saco contendo moedas de ouro. Não escreveu bilhetes, não procurou reconhecimento e tampouco esperou agradecimentos. Apenas permaneceu por alguns instantes diante do altar, em silêncio, antes de desaparecer novamente pelas ruas adormecidas.

Na manhã seguinte, a população encontrou a relíquia em seu devido lugar. A alegria tomou conta da pequena comunidade. Ninguém compreendia como o objeto havia retornado, muito menos quem o havia devolvido. A descoberta das moedas de ouro aumentou ainda mais o espanto. Com aquele dinheiro, os moradores conseguiram melhorar a estrutura da capela, restaurando parte de suas paredes e proporcionando melhores condições para as celebrações.

O ladrão, entretanto, já havia partido.

Pegou sua mala e seguiu pelo mundo afora, levando consigo os mesmos hábitos, os mesmos conhecimentos e a mesma capacidade de acumular riquezas. Continuou sua jornada, construindo uma fortuna por meio de suas atividades, sem que ninguém soubesse o que havia acontecido naquela pequena cidade.

Mas alguma coisa havia mudado.

Desde aquele episódio, sempre que encontrava um ostensório em uma igreja ou capela, seus passos se tornavam mais lentos. Observava a peça por alguns instantes, recordava o rosto de seu pai e seguia adiante.

Nunca mais roubou um ostensório.

  • Talvez porque tivesse finalmente compreendido que existem riquezas cujo valor não pode ser calculado pelo peso do ouro. E que, às vezes, aquilo que procuramos durante toda uma vida não está escondido em cofres, templos ou tesouros, mas nas lembranças que abandonamos pelo caminho.

Escrito por Alexandre Guilherme

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