Alexandre GuilhermeColunaLendas

Conto: Expressão

A bela pintura das chuvas coloridas se estabilizava nas químicas dançarinas da chama, relegadas como soleiras suplicantes de brilhantina feminina, no suor de uma arte que sangrava a beleza, chutada contra o verniz masculino.

 

A arte tinha seus encantos chorados entre as pinturas da alma, que contemplava o alvorecer dos grafites humanos. Havia um jovem apaixonado pela arte, uma chama de mármore que se abria como uma flor em sua própria expressão, carregando no semblante viajante um horizonte sem nome.

 

Fazia parte de seu convívio respirar a cultura que o reverenciava como uma oração. Em meio às peças de arte articuladas e às estátuas que pareciam puxá-lo para dentro de seus próprios mundos, o jovem encontrava-se onde quer que estivesse a multidão.

 

Ele não se propunha a ser apenas um cidadão comum. Debruçava-se sobre a existência como quem desejava tornar-se uma grande estátua, esculpida pelo brilho dos contos que guardava em um caderno entre as mãos.

 

Quando uma moeda era lançada aos seus pés, o caderno se abria. Era como se uma profunda energia percorresse suas páginas, e a magia entre as pessoas se transformasse em uma leitura quase idolatrada. Cada palavra parecia carregar uma parte de sua alma.

 

Mas aquilo começava a interferir profundamente na vida daquele jovem artista.

 

Como pessoa, ele mergulhava cada vez mais em uma solidão que já não sabia nomear. Talvez fosse tristeza. Talvez uma espécie de depressão da razão. Já não dialogava com a população, nem sequer com os familiares que ainda tentavam alcançar seu coração.

 

Sentia-se devorado por imensas prisões invisíveis.

 

Somente a estátua o libertava.

 

Ele era como uma luz perdida na estrada, iluminando o caminho dos outros enquanto permanecia escondido dentro de si mesmo.

 

Certo dia, decidiu testar uma nova apresentação em um grande parque da cidade, onde muitas pessoas costumavam se reunir.

 

Vestiu uma roupa feita de um estranho material de cimento e látex, criada para dar maior originalidade à sua performance. A intenção era simples: permanecer imóvel, transformando-se, diante dos olhos do público, em uma verdadeira estátua humana.

 

No início, tudo correu como planejado.

 

Ele permaneceu parado.

 

Os olhos observavam a multidão.

 

As pessoas caminhavam ao seu redor, admirando aquela figura imóvel, quase impossível de distinguir de uma escultura verdadeira.

 

Até que algo inesperado aconteceu.

 

A roupa começou a endurecer.

 

Primeiro, lentamente.

 

Depois, por completo.

 

O jovem tentou movimentar os braços, mas não conseguiu. Tentou mexer o corpo, mas já era tarde. Apenas os olhos permaneciam vivos, percorrendo o movimento das pessoas que passavam diante dele.

 

Ninguém conseguia retirar aquela vestimenta de seu corpo.

 

A cada tentativa, o material parecia tornar-se ainda mais rígido, como se tivesse sido moldado pela própria força da arte.

 

E então ele ficou cravado naquele espaço.

 

Tornou-se, enfim, aquilo que durante tanto tempo desejara ser:

 

uma estátua humana.

 

Para sempre.

 

A chama dentro dele, porém, nunca se apagou.

 

Seu corpo havia se fechado para a vida comum. Tornara-se praticamente sólido, silencioso, imóvel. Mas, paradoxalmente, naquele instante encontrou uma liberdade que jamais havia experimentado.

 

Já não precisava explicar quem era.

 

Já não precisava conversar.

 

Já não precisava fugir de si mesmo.

 

Agora, era a própria arte.

 

As pessoas continuavam passando pelo parque. Algumas paravam diante dele. Outras deixavam moedas aos seus pés. Algumas tocavam o caderno que permanecia aberto, como se procurassem compreender a história escondida em suas páginas.

 

E, quando alguém lia seus contos, algo parecia despertar naquele rosto imóvel.

 

Talvez fosse a magia.

 

Talvez fosse a memória.

 

Talvez fosse apenas a expressão silenciosa de uma alma que finalmente encontrara seu lugar.

 

Ele permanecia ali, como uma luminária acesa em meio à escuridão, irradiando toda a beleza íntima que havia guardado durante anos.

 

E, embora não pudesse mais caminhar, abraçar ou falar, sentia-se feliz quando alguém o visitava.

 

Porque havia descoberto que algumas pessoas passam pela vida procurando uma forma de existir.

 

Ele havia encontrado a sua na arte.

 

E assim permaneceu, sólido diante do tempo, respirando por dentro aquilo que ninguém podia ver: a eterna expressão de uma alma que, finalmente, aprendera a transformar sua solidão em beleza.

Escrito por Alexandre Guilherme

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