O Veredito

Será conferido o ferido de todo ferimento, no sereno absorvido pelo seguimento entre o relento dos sentidos, remetido aos tiros de um contexto aflito, de gatilho abatido no mérito cativo do delírio, azeitado pelo tempo.
O retorno do decano acontece no próprio velório. Seu corpo repousa isolado no centro da cerimônia, e isso o deixa perplexo ao contemplar o próprio reflexo estampado no cadáver cuidadosamente maquiado dentro do caixão. Estando fora da matéria, tenta agir com naturalidade, incapaz de compreender a complexidade daquilo que vivia. Ignora, inclusive, as orientações de seu mentor espiritual.
As pessoas não o escutavam. Ele já habitava outra dimensão. Ainda assim, insistia em abordá-las. Contudo, através das conversas que ouvia, pôde finalmente avaliar quem realmente o acompanhara durante sua passagem pela Terra.
No Judiciário, muitos se diziam seus amigos. Frequentavam sua casa, sentavam-se à sua mesa, elogiavam sua integridade e abusavam de sua honestidade. Pediam conselhos, favores e, não raras vezes, dinheiro. Todo o conhecimento que ele acumulou durante a vida agora jazia silencioso dentro de um caixão.
Enquanto seu corpo era velado, aqueles mesmos “amigos” sorriam discretamente e, acreditando que ninguém os ouvia, murmuravam:
— Já foi tarde.
Tomado pela indignação, o decano tentou desferir um soco em um deles. Sua mão, porém, atravessou o corpo do homem como se atravessasse a fumaça. Naquele instante, compreendeu que já não pertencia ao mundo dos vivos.
Mas o que mais o encabulava era a ausência completa de sua família. Não havia sua esposa, trinta anos mais jovem. Não estavam seus dois filhos. Tampouco seu único irmão. O velório estava repleto de estranhos e de falsos amigos, mas vazio de qualquer afeto verdadeiro.
Decidiu afastar-se dali e foi até sua bela residência.
Ao chegar, deparou-se com uma grande festa.
Sua esposa brindava com o amante. Seus dois filhos bebiam o uísque que ele tanto apreciava. Seu único irmão passeava com um de seus carros de luxo, exibindo-se como um playboy. E foi naquela casa que descobriu a mais cruel das verdades: seu filho caçula não era, de fato, seu filho, mas fruto da relação entre sua esposa e o amante.
A revolta tomou conta de seu espírito.
Tentou mover as cadeiras. Fez as lâmpadas piscarem e se apagarem. Um vento atravessou os corredores da casa.
Mas todos estavam tão embriagados que ninguém deu importância ao inexplicável.
Sem forças, deixou o lugar.
Pela primeira vez desde a morte, passou a julgar a própria existência.
Questionou se o caminho que escolhera havia sido, de fato, o correto. Fora um juiz íntegro, rigoroso com a lei, fiel aos seus deveres e incorruptível em sua missão. Contudo, ao final da jornada, descobriu que não possuía amigos verdadeiros nem uma família que realmente o amasse. Tudo parecia ter sido sustentado por interesses, conveniências e aparências.
Depois de testemunhar tamanha desilusão, voltou-se para seu mentor espiritual e perguntou, com voz serena:
— Ainda me seria permitido reencarnar?
O mentor permaneceu em silêncio.
O decano então completou:
— Se me for concedida outra vida, não desejo nascer entre homens que escondem a hipocrisia sob a máscara da virtude. Prefiro renascer na casa das prostitutas, onde o pecado é assumido sem disfarces, onde ninguém veste a santidade para esconder a corrupção da alma. Ali, ao menos, o falso moralismo não prospera, e a mentira não se sustenta por muito tempo.
O mentor apenas o contemplou.
Na eternidade, até os juízes descobrem que o veredito mais difícil nunca é o que se profere sobre os outros, mas aquele que se pronuncia sobre a própria vida.
Escrito por Alexandre Guilherme
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