Capoeiragem

As lutas da vida são ferozes e supremas. No tempo da escravidão, a gravura da vivência permanecia camuflada em um banho de fuga e sofrimento que massacrava almas e corpos.
Isso me fez lembrar de uma história guardada nas profundezas do poço de uma consciência envelhecida.
Na época em que a chibata sangrava diante dos olhos nus, os escravos resistiam com sua luta corporal e espiritual, disfarçada de dança. Assim nasceu um grande quilombo emocional. Esse balé mortal trazia expressão corporal, cantorias, palmas, berimbau e uma roda, recebendo o nome de capoeira.
Essa arte possui encantos e venenos. Ela encantou o coração de uma menina de 22 anos, vinda de uma família branca e de classe média. A jovem era humilhada pela própria família por causa de sua baixa estatura: tinha apenas 1 metro e 40 centímetros de altura.
Sua família dizia que ela nunca seria nada e acabou expulsando-a de casa. Sozinha, passou a viver nas ruas. Certo dia, ela presenciou uma roda de capoeira e ficou deslumbrada. Procurou saber quem ensinava aquela arte.
Um rapaz lhe respondeu:
— Aquele senhor de chapéu e roupa branca. Todos o chamam de Mestre Caju.
A menina aproximou-se do mestre e disse:
— Mestre, me ensine essa cultura.
Todos olharam para ela, inclusive o próprio mestre, e começaram a rir e zombar de sua aparência.
Ela saiu correndo e chorando, mas ergueu a cabeça e disse a si mesma:
— Não vou desistir de aprender essa luta.
Então, passou a observar de longe a forma como Mestre Caju ensinava. Em um lote baldio escondido, começou a treinar sozinha: ginga pra lá, ginga pra cá, queixada de um lado, armada do outro, vingativa e rasteira, esquivas precisas, cabeçadas certeiras, martelo e esporão, rabo de arraia na praça, meia-lua de compasso no espaço, jogo floreado, tombo da ladeira nas veredas, enquanto os toques do berimbau ecoavam em seus ouvidos — São Bento Grande, Cavalaria, Benguela, Santa Maria, Amazonas e o clamor da Iúna.
Depois de alguns anos, ela percebeu que estava preparada para enfrentar a roda de Mestre Caju.
Mas então pensou:
— Como vou enfrentá-los? Eles não vão me aceitar por eu ser pequena.
Foi então que teve uma ideia. Criou uma espécie de perna de pau flexível, adaptada ao próprio corpo, que lhe dava mais altura e equilíbrio. Vestiu-se como homem e foi para a roda de Mestre Caju.
Apresentou-se como Biriba. Todos a observavam com receio. Porém, quando começou a jogar, os capoeiristas ficaram impressionados com sua técnica refinada. Ela derrubava um jogador após o outro.
Então Mestre Caju entrou na roda para enfrentá-la. Biriba respondeu ao jogo na mesma altura do mestre. Contudo, em um pequeno descuido, o mestre descobriu que aquele misterioso jogador era, na verdade, a pequena menina rejeitada anos antes.
Todos ficaram espantados. Mas também perceberam sua coragem, talento e determinação.
Ela foi aceita no grupo e, mais tarde, tornou-se Mestra Maria Biriba.
Na escola da vida, tamanho não é documento.
Escrito por Alexandre Guilherme, acesse o site e adquira suas obras literárias: www.jornahoraextra.com.br





