Alexandre GuilhermeColunaLendas

Compaixão

Há tantos mendigos ricos que chegam a cortar o coração. São pessoas cercadas pelo ouro, mas pobres daquilo que realmente importa. Vivem aprisionadas ao brilho do presente, esquecendo que tudo o que a natureza nos concede também pode, um dia, nos ser tirado.

 

Um menino nasceu em um verdadeiro berço de ouro, proporcionado pelo pai. Era o único sobrevivente de uma família de três irmãos e, por isso, carregava sobre os ombros uma grande responsabilidade: seria o herdeiro de toda a fortuna construída pelo pai ao longo de sua vida.

 

Moravam juntos em uma enorme mansão, cercados por luxo, empregados e riquezas. A mãe do menino era separada do pai e vivia em outro país, muito distante do filho. O garoto, ainda pré-adolescente, atravessava os desafios e as inseguranças próprias da idade.

 

Apesar de tudo, ele tinha um enorme carinho pelo pai. E o pai também o amava, embora estivesse sempre ocupado demais para demonstrar.

 

— Pai, vamos passear na praça e tomar um sorvete?

 

— Agora não, filho. Minha vida está muito corrida. Preciso cuidar dos negócios. Outro dia nós iremos.

 

O menino insistia.

 

— Pai, vamos?

 

E a resposta quase sempre era a mesma:

 

— Não tenho tempo agora. Depois nós iremos.

 

Até que, certo dia, o menino acordou especialmente alegre. Parecia estar vivendo um dos dias mais felizes de sua vida. Então pediu a um dos funcionários da casa que o levasse à praia para tomar um banho de mar.

 

O funcionário obedeceu ao jovem patrão e o levou até uma praia tranquila e quase deserta.

 

O menino tirou a camiseta e a calça estampada que vestia e correu em direção ao mar. Entrou na água, mergulhou e voltou à superfície sorrindo.

 

O funcionário observava tudo da areia.

 

De repente, uma grande onda surgiu.

 

O menino desapareceu.

 

O funcionário correu desesperado em direção ao mar, procurando por ele. Gritou seu nome, mergulhou, pediu ajuda, mas não conseguiu encontrá-lo.

 

A notícia chegou ao pai.

 

Desesperado, ele foi imediatamente para a praia. Gritava pelo filho, chamava seu nome e corria de um lado para o outro, como se sua voz pudesse trazer o menino de volta.

 

Durante meses, equipes procuraram pelo garoto em toda a região. O mar, porém, guardou seu silêncio.

 

O corpo nunca foi encontrado.

 

Dias depois, o funcionário encontrou um pequeno pedaço de papel dentro da calça que o menino havia deixado antes de entrar no mar. Era uma mensagem escrita à mão.

 

Ele entregou o papel ao pai.

 

Com as mãos trêmulas, o homem abriu e leu:

 

**“Meu amado pai, sei que você não tem tempo para mim, mas eu te amo para sempre.”**

 

Aquelas poucas palavras destruíram o homem por dentro.

 

Ele tinha construído uma fortuna, comprado tudo o que o dinheiro podia comprar, mas percebeu tarde demais que havia deixado escapar aquilo que nenhuma riqueza seria capaz de recuperar.

 

O tempo.

 

O abraço.

 

A infância do filho.

 

Os passeios que nunca aconteceram.

 

Os sorvetes que ficaram para depois.

 

Durante muito tempo, a ferida permaneceu aberta. O pai abandonou os negócios, afastou-se da vida de luxo e passou a viver de maneira simples.

 

Anos depois, sabendo que não poderia mais ter outro filho, tomou uma decisão.

 

Adotou uma criança.

 

Não para substituir o filho que havia perdido — porque ninguém jamais poderia ocupar aquele lugar —, mas para aprender novamente a ser pai.

 

Passou a dedicar seu tempo à criança. Levava-a para passear, tomava sorvete com ela, ouvia suas histórias, brincava e, acima de tudo, estava presente.

 

Queria mostrar àquela criança o verdadeiro significado de uma família.

 

A adoção não apagou sua dor. Nenhum amor novo apaga uma ausência tão profunda.

 

Mas, pouco a pouco, ele descobriu que ainda podia transformar sua culpa em amor e sua dor em compaixão.

 

Certa noite, enquanto caminhava com o filho adotivo, os dois olharam para o céu.

 

Uma estrela cadente atravessou a escuridão.

 

A criança apontou para o céu e perguntou:

 

— Pai, será que podemos fazer um pedido?

 

O homem sorriu, com os olhos marejados.

 

Fechou os olhos e fez seu pedido em silêncio:

 

**“Meu filho, onde quer que você esteja, que seja uma luz permanente no céu. E que eu nunca mais me esqueça de que o maior tesouro que um pai pode possuir não está em seus cofres, mas no tempo que dedica a quem ama.”**

 

Naquela noite, pela primeira vez em muitos anos, o homem sentiu que a ferida ainda existia, mas já não sangrava como antes.

 

Porque finalmente havia compreendido:

 

**riqueza nenhuma compra o tempo que perdemos, e nenhuma fortuna vale mais do que a presença de quem amamos.**

 

Escrito por Alexandre Guilherme

Adquira as obras literárias do Escritor Alexandre Guilherme no site: www.escritoralexandreguilherme.com.br

Botão Voltar ao topo
Fechar

AdBlock detectado!

Nosso site exibe alguns serviços importante para você usuário, por favor, desative o seu AdBlock para podermos continuar e oferecer um serviço de qualidade!