
A porta do barraco era sem trinco
Mas a lua, furando o nosso zinco
Salpicava de estrelas nosso chão
Silvio Caldas
A expressão “chão da escola” divide opiniões entre meus colegas de profissão. Alguns acreditam que somos operários. O chão da escola seria o equivalente ao chão da fábrica. Já outros acreditam que somos intelectuais e que tal expressão não nos favorece. Como aprendi com o Frei Betto que “a cabeça pensa onde os pés pisam”, acho que as duas leituras deveriam se complementar.
Não queria falar de Paulo Freire aqui porque infelizmente ele é mais citado do que lido, mas foi com ele que aprendi a pesquisar. A equação da práxis, presente na Pedagogia do Oprimido, é cristalina. Ação sem reflexão nos desumaniza, reflexão sem ação é receita certa pra formação que o professor vai fazer questão de jogar fora da cabeça e do coração assim que deixar o recinto.
Sou professora de Arte. Criação faz parte do escopo da área, o que torna a gente um pouco diferente do que o senso comum entende por intelectualidade. Espantam-se com o trabalho de ação reflexiva (pesquisa, leitura e elaboração) quem supõe que nestas aulas vai haver um “descanso” do intelecto. Também se espantam aqueles que não percebem a sala de aula como um espaço de experimentação e criação.
No entanto, a criação não é domínio exclusivo da Arte na escola. A escrita como criação e expressão literária despertou para mim na antiga 8ª série, nas aulas de português da Profª Myioko. “Diário de classe” era um jogo de regras enxutas: todo dia, de dez a quinze minutos de escrita com um tema que ela propunha. Quem queria, podia ler. E só. Foi aí que percebi que tinha fogo na ponta da minha caneta. Nunca mais parei.
De 1997 pra cá eclodiram movimentos de literatura periférica e/ou marginal como o Slam Interescolar, batalha de rimas e projetos na Rede Municipal de São Paulo (onde estudei e sou professora há 18 anos), como Academia Estudantil de Letras e Imprensa Jovem. A palavra ferve na voz dessa garotada.
É importante ressaltar que a criação artística e literária vai além do registro escrito. Pode ser na caneta, mas também no microfone e quando até este falta, vai no gogó mesmo. Quantas vezes eu vi análises sofisticadas da realidade na forma de improvisações e jogos teatrais, em salas de aula transformadas em arena?
Esse cenário vibrante contrasta com a insistência em modelos curriculares estéreis, que por mais que se declarem contemporâneos, nada mais são que a atualização neoliberal do paradigma técnico-linear, reforçados anualmente por avaliações externas que medem, mas não escutam. Silvio Gallo, no artigo Por uma Educação Menor, chama toda essa parafernália de educação maior. A educação menor seria essa que cava autonomia, poesia e criação nas brechas no cotidiano, com a alegria de um cão teimoso. (E quando me lembro que Gallo elaborou esse pensamento a partir do conceito de literatura menor do Franz Kafka, minha alegria rebelde só aumenta). Essas iniciativas que mencionei anteriormente existem apesar da falta de autonomia docente, não por causa dela.
Para confiar de fato no corpo docente, não é necessário jogar fora os referenciais curriculares. Eles só precisam ser moldados a partir dos protagonistas da educação básica, professores e alunos, no chão da escola. O referencial das Salas de Leitura da RME/SP é o melhor exemplo que conheço de documento orientador que respeita a autonomia dos seus professores justamente porque permite a criação. Por mais que não seja um projeto que promova escrita, ele faz algo crucial pela formação de novos escritores: forma leitores antes de tudo, por meio do compartilhamento de experiências. E mesmo sendo mediação, pode incluir a escrita, como síntese ou recriação. Não à toa, as salas de leitura estão ativas desde 1972. É o projeto mais longevo e bem-sucedido da rede.
Para que o chão da escola seja salpicado de estrelas, como na canção de Silvio Caldas, basta deixar que os professores e professoras deste país façam o que sabem fazer. Sem ruídos burocráticos, ou de gente que não entende que este chão é nosso reino, nossa casa de invenção. Se for entrar, que tirem os sapatos. Deixem a poeira da rua no capacho e respeitem. Talvez vocês se surpreendam com os resultados.
Flávia Teodoro Alves (São Paulo, 1982) é arte/educadora, pesquisadora, poeta multimeios e professora da rede pública em São Paulo há 20 anos. Mestra em Artes (Unesp) e pós-graduada em Formação de Escritores, é autora dos livros de poesia “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (2022) e “Toda reza é tentativa de telecinese” (2023, traduzido para o espanhol). Sua escrita é marcada pelo fragmento, pela intuição e pelo engajamento com questões sociais, feministas, periféricas e neurodivergentes.
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