
Pedro Sales e Joaquim Guilherme são os casos mais recentes de lideranças que deixaram pelo caminho projetos eleitorais; movimento revela uma disputa cada vez mais concentrada e marcada pelo cálculo de viabilidade
A eleição de 2026 em Goiás começa a revelar um fenômeno que merece mais atenção do que a simples contagem de candidatos: o número de lideranças que chegaram a anunciar projetos eleitorais e, por razões distintas, decidiram sair do caminho ou mudar de rota. A desistência de Pedro Sales, confirmada nesta terça-feira (18), é particularmente simbólica. Ex-presidente da Goinfra e nome identificado com o grupo de Ronaldo Caiado, Sales havia deixado a estrutura do governo para disputar a Câmara dos Deputados, mas decidiu abandonar o projeto e retornar a Brasília. Politicamente, sua saída mostra que nem mesmo nomes próximos de estruturas de poder estão imunes ao cálculo sobre custos, viabilidade e perspectivas reais de eleição.
Outro caso que chama atenção é o de Joaquim Guilherme, ex-prefeito de Morrinhos, que retirou a pré-candidatura a deputado estadual depois de meses de articulação política. O movimento mostra como a eleição proporcional exige uma engenharia territorial cada vez mais complexa. Guilherme chegou a ingressar no Mobiliza com o objetivo de disputar a Assembleia Legislativa e participou de articulações envolvendo lideranças de Morrinhos e da região. A tentativa de construir uma composição política local, entretanto, não prosperou, e o ex-prefeito decidiu sair da disputa. Os casos de Sales e Joaquim Guilherme têm algo em comum: ambos chegaram ao processo eleitoral com capital político, mas concluíram que entrar na disputa não significava necessariamente ter condições de competir em igualdade.
O fenômeno, contudo, começou antes. Jorge Kajuru anunciou que não disputaria nenhum cargo em 2026, encerrando sua participação eleitoral. Vilmar Rocha, por sua vez, retirou o nome da corrida pelo Senado. São trajetórias diferentes, mas que ajudam a explicar o processo de filtragem pelo qual passa a eleição. Kajuru optou por deixar a política eleitoral, enquanto Vilmar, político experiente, retirou-se de uma corrida que se desenhava congestionada. Em ambos os casos, há uma constatação típica da ciência política: a decisão de disputar uma eleição não depende apenas da vontade individual, mas da percepção sobre a relação entre recursos disponíveis, alianças, competitividade e possibilidade concreta de vitória.
Há ainda um segundo grupo: os que não abandonaram a eleição, mas desistiram do projeto original. É o caso de Alexandre Baldy, que abriu mão da candidatura ao Senado para assumir a primeira suplência de Gracinha Caiado; de Humberto Teófilo, que desistiu do Senado e migrou para a Câmara; e de Edward Madureira, que abandonou a possibilidade de disputar o Governo para concorrer a deputado federal. Adriana Accorsi também mudou de rota ao deixar de ser uma alternativa para o Palácio das Esmeraldas e concentrar seu projeto na Câmara. Esses movimentos mostram que candidaturas são, sobretudo, produtos de negociação. À medida que o calendário avança, partidos e lideranças passam a fazer contas mais precisas sobre votos, dinheiro, alianças, tempo de exposição e capacidade de transferência de apoio.
O PT oferece outro exemplo dessa seleção de candidaturas. Cláudio Curado retirou sua pré-candidatura ao Governo e passou a defender Adriana Accorsi, enquanto Edward Madureira também abandonou a disputa majoritária. O partido precisou reduzir alternativas para concentrar forças. O movimento é comum em eleições competitivas: quanto mais próximo o pleito, menor tende a ser o espaço para projetos individuais e maior a pressão por concentração de recursos em candidaturas consideradas viáveis. No campo governista, a montagem da chapa também produziu movimentos semelhantes, absorvendo potenciais candidatos, reorganizando posições e reduzindo o número de projetos concorrentes dentro do próprio grupo.
No conjunto, as desistências de Pedro Sales, Joaquim Guilherme, Jorge Kajuru e Vilmar Rocha, somadas às mudanças de rota de Baldy, Humberto Teófilo, Edward Madureira, Cláudio Curado e Adriana Accorsi, ajudam a contar a história da formação da eleição de Goiás. O que se vê é uma disputa em processo de concentração: menos candidaturas intermediárias, maior racionalidade na distribuição de recursos e bases eleitorais e uma disputa cada vez mais orientada pelo cálculo de viabilidade. Para os partidos, cada desistência representa um espaço que imediatamente passa a ser cobiçado por outro candidato. Para os eleitores, significa que o desenho definitivo da eleição começa a aparecer justamente quando alguns dos nomes que estavam no tabuleiro começam a desaparecer. Na política, permanecer na disputa quando outros abandonam o caminho também pode ser uma forma de ganhar terreno.







