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O Entorno já tem votos para ser protagonista. Falta agir como tal

Por décadas, a região do Entorno do Distrito Federal foi tratada como um apêndice político de Brasília. Hoje, essa realidade mudou. O Entorno consolidou um dos maiores colégios eleitorais de Goiás, cresce acima da média estadual, concentra cidades entre as mais populosas do Estado e influencia diretamente qualquer eleição majoritária. Ainda assim, continua sub-representado nas instâncias de poder.

É uma contradição.

A região reúne cerca de um milhão de eleitores, distribuídos em municípios como Luziânia, Valparaíso, Águas Lindas, Novo Gama, Cidade Ocidental, Formosa, Planaltina, Santo Antônio do Descoberto, Cristalina e Padre Bernardo. Trata-se de um eleitorado superior ao de diversas capitais brasileiras e capaz de decidir eleições estaduais. O crescimento populacional é impulsionado, principalmente, pela expansão da área metropolitana de Brasília e pela migração constante de moradores do Distrito Federal para os municípios goianos.

Apesar desse peso demográfico e eleitoral, a representação regional permanece modesta.

Hoje, o Entorno conta com apenas três deputados estaduais — Zeli Fritsche, Cambão e André do Premium — além de dois deputados federais: Lêda Borges e Célio Silveira.

É pouco para uma região desse tamanho.

Se compararmos a força eleitoral do Entorno com outras regiões goianas, percebe-se um desequilíbrio evidente. Enquanto polos tradicionais conseguem transformar seu eleitorado em bancadas robustas na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal, o Entorno dispersa votos entre dezenas de lideranças locais, projetos individuais e disputas municipais que frequentemente impedem a construção de uma estratégia regional.

O problema, portanto, não é falta de votos. É falta de coordenação.

A política moderna premia regiões capazes de agir coletivamente. O Sudoeste goiano faz isso. O Sul do Estado faz isso. O Norte também vem avançando nesse modelo. O Entorno, porém, ainda permanece preso a rivalidades locais, disputas entre prefeitos, grupos políticos fragmentados e lideranças que muitas vezes enxergam o município vizinho como adversário, quando deveriam enxergá-lo como aliado.

Essa divisão cobra um preço alto.

Quanto menor a bancada, menor a influência na distribuição de recursos, na ocupação de espaços estratégicos, na definição de prioridades do governo e na capacidade de defender pautas comuns como mobilidade, segurança pública, saúde regional, infraestrutura e desenvolvimento econômico.

É uma matemática simples: quem fala sozinho, pesa menos.

O potencial existe para muito mais. Em termos eleitorais, o Entorno reúne condições para ampliar significativamente sua presença na Assembleia Legislativa e também aumentar sua bancada federal nos próximos ciclos eleitorais. Mas isso exige maturidade política.

Será necessário construir um pacto regional.

Não significa abrir mão das diferenças partidárias, mas reconhecer que algumas agendas são maiores do que qualquer eleição municipal. A região precisa formar um bloco político permanente, capaz de defender interesses comuns, articular candidaturas competitivas, evitar a pulverização excessiva de votos e fortalecer uma identidade regional.

O Entorno deixou de ser periferia de Brasília há muito tempo. Hoje é um dos principais motores demográficos, econômicos e eleitorais de Goiás.

Resta transformar esse peso eleitoral em peso político. Porque representação não nasce apenas das urnas. Nasce, sobretudo, da capacidade de organização.

E talvez este seja o maior desafio, e a maior oportunidade, que o Entorno de Brasília tem diante de si.

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