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Leide das Neves se tornou a sombra na vida do deputado Zé Nelto

Deputado tratou criança de seis anos como lixo nuclear, ao jogar pedras em seu caixão e tentar impedir seu sepultamento

A criança era Leide das Neves, que morreu aos seis anos depois de ter contato com Césio-137, em Goiânia. O comportamento de José Nelto chocou o mundo na época.

Transcrição da imagem. Os trechos cortados ou sem leitura segura estão indicados entre colchetes.

“Anos depois do acidente com o césio, o deputado diz que não tentou impedir o sepultamento de Leide das Neves”

Mas a versão é contraditada por testemunhas. “Se ele estava presente à manifestação e viu pessoas jogando pedras e paus, e, não impediu, demonstrou concordância”, disse um familiar.

O deputado José Nelto revelou em 1999, durante reportagem ao Diário da Manhã, que não sente “nenhum remorso” de ter participado do ato público — em outubro de 1987 — para impedir que a menina Leide das Neves (morta depois da contaminação com o césio 137) fosse sepultada no Cemitério Parque, em Goiânia. “Tenho a minha consciência tranquila”, garante Nelto.

Na época, ele fez um desafio: “Se provarem que eu joguei uma pedra sequer ou tenha mandado alguém jogar contra o caixão, quero que Deus deixe minha mãe, meu pai e meus dois filhos cegos”. Portanto, quem estava na manifestação pode endossar ou desmentir a jura.

Vinte e nove anos depois do acidente com o césio 137, uma foto do editor de Fotografia do DM, Marco Monteiro, revela o momento exato em que várias pessoas — com pedras nas mãos — tentavam impedir o sepultamento de Leide e sua tia.

Na foto, que não deixa de ser uma versão do episódio, Nelto aparece em posição comprometedora. À frente de várias pessoas, dá a impressão de que as chama para impedirem o enterro das duas vítimas do césio, que os manifestantes consideravam lixo radioativo e não seres humanos.

O deputado contesta essa versão. Em segundo plano na foto, ele garante que estava tentando conter as pessoas, que se aproximavam do veículo que conduzia os caixões: “Senti muito medo naquele momento”. Na época, tinha 23 anos e estava no seu primeiro mandato de vereador por Goiânia.

Há quem confirme e quem negue sua versão. Escalado para fazer as fotos do sepultamento, Monteiro diz que realmente Nelto estava temeroso: “Ele ficou com muito medo no momento em que a Polícia Militar chegou para conter os manifestantes”. Monteiro não se lembra de ter visto Nelto deitar-se no túmulo (gesto dos que queria impedir o sepultamento).

O jornalista Cláudio Pontes, que no dia estava no cemitério a serviço do DM, conta que antes de a PM chegar, Nelto realmente deitou-se no túmulo. Um pouco antes dessa cena, segundo Pontes, o deputado liderou os moradores de setores vizinhos do cemitério durante a manifestação.

Os mais afoitos atiraram pedras na camionete em que estavam os caixões. O motorista abandonou o carro momentaneamente, com medo de ser atingido.

“A foto de Marco Monteiro mostra Nelto (centro) em manifestação contra enterro de Leide das Neves.”

Ainda de acordo com Nelto, naquela época as pessoas se mobilizaram contra o enterro da menina por puro desconhecimento das consequências que o Césio poderia provocar.

“Muitos pensavam que a contaminação seria geral”. O deputado comentou que nem mesmo a Cnen (Comissão Nacional de Energia Nuclear), responsável pela fiscalização de materiais contendo radioatividade, tinha conhecimento do que estava acontecendo.

Se fosse hoje, de acordo com Nelto, ele se comportaria de forma diferente. “Agiria no sentido de convencer as pessoas de que um sepultamento naquelas condições não representaria riscos à saúde de ninguém”, assegurou. Disse também que, se fosse preciso, participaria de outro ato daquela natureza.

 

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