In-Verso: primeiro Festival de Poesia Infantojuvenil de Pirenópolis oferece oficinas gratuitas e sarau aberto ao público

Em meio aos desafios impostos pela hiperconectividade a iniciativa aposta na literatura, na oralidade e na expressão corporal para fortalecer vínculos, ampliar repertórios e valorizar as narrativas das novas gerações
O In-Verso, primeiro Festival de Poesia Infantojuvenil de Pirenópolis chega com oficinas gratuitas de escrita criativa, poesia falada e presença cênica a serem realizadas nos dias 10, 11 e 12 de junho. A iniciativa busca fortalecer a criatividade, a oralidade, o senso crítico e a autoestima de crianças e adolescentes, ao mesmo tempo em que amplia o acesso à formação cultural no interior goiano. O projeto é uma realização do Instituto Bororó e do Arandu Ecopedagogia com o apoio do Sicoob Goiás e da Prefeitura de Pirenópolis. Acompanhe a programação no Instagram (@arandu_ecopedagogia e @institutobororo).
Nos períodos da manhã, as atividades serão voltadas para estudantes da rede pública de ensino. À tarde, a partir das 14h, às ações acontecem no Centro Municipal de Artes e Música – Ita e Alaor, abertas às crianças e adolescentes da comunidade. As inscrições precisam ser realizadas com antecedência pelo formulário. O encerramento do festival acontece em 30 de junho, com um sarau. A programação prevê declamações poéticas realizadas pelos participantes, exposição em formato de varal literário e apresentação musical do Trio Arandulinas.
O In-Verso tem origem na Arandu Ecopedagogia, projeto de educação não formal em Pirenópolis, fundado em 2021 pela bióloga Aline Lino e o músico Marcus Lua. Durante as atividades teatrais, surgiram espontaneamente momentos de declamação de poemas autorais, além do interesse dos alunos pela Batalha do Vale, voltada à rima e ao improviso. ”Essas experiências reforçaram o potencial do encontro entre cultura e educação. A poesia é uma ferramenta de desenvolvimento emocional, social e cognitivo, vai muito além das métricas”, lembra Aline.
O Arandu parte de uma premissa muitas vezes ignorada pela sociedade: crianças e adolescentes também produzem cultura e possuem uma leitura própria sobre o mundo. “Ao dar protagonismo às novas gerações, reconhecemos que elas têm muito a dizer e a ensinar. Vemos diariamente que, quando estimuladas, podem ser até mais coerentes e sensíveis na compreensão da realidade do que muitos adultos”, afirma Aline Lino.
Segundo Marcus Lua, a educação tradicional muitas vezes limita os conteúdos em categorias rígidas, quando na verdade existem infinitas possibilidades de aprendizado. Nesse contexto, iniciativas como o In-Verso, ampliam espaços de conhecimento para as infâncias, especialmente no interior. Ao realizar oficinas públicas e gratuitas, o projeto permite que mais crianças e famílias participem independentemente de sua realidade. Para ele, ”democratizar o acesso à cultura também fortalece vínculos comunitários e contribui para a formação de jovens mais confiantes, conscientes e saudáveis”.
Desenvolvimento infantojuvenil
A proposta do In-Verso dialoga com desafios contemporâneos relacionados ao excesso de tempo diante das telas, estímulos rápidos e à diminuição das convivências presenciais. Professor de Língua Portuguesa e responsável pela oficina de Escrita Poética, Pedro Moreira avalia que a literatura desempenha um papel importante ao estimular a imaginação.“Diferentemente dos conteúdos audiovisuais em tela, a leitura e a escrita exigem que cada pessoa construa mentalmente suas próprias imagens, exercitando a criatividade”.
Reconhecido pelas participações em batalhas de rima no Distrito Federal, Tito Noleto acredita que o contato com a cultura amplia horizontes e fortalece a capacidade de interpretação da realidade. “A cultura também é uma prática de liberdade. Quando os jovens conhecem novas formas de expressão, ampliam seu repertório e passam a enxergar possibilidades para suas vidas. A experiência de subir ao palco e compartilhar uma criação própria pode ser transformadora, especialmente em uma geração marcada pela influência das redes sociais”, afirma Tito, que começou a rimar com 12 anos e ministrará a oficina de Poesia Falada.
“Quando o jovem cria arte, falada, cantada, rimada, ele deixa ser apenas espectador e passa a participar ativamente da construção de sentidos do mundo. Com a poesia, ele vai além da bolha das redes sociais.” – Tito Noleto
Para a atriz e professora Tulasi Devi, trabalhar corpo e voz durante a infância é também uma forma de ajudar crianças e adolescentes a compreenderem quem são e qual lugar ocupam no mundo. Segundo ela, é por meio da experimentação corporal e da expressão vocal que cada pessoa desenvolve autonomia, presença e identidade. “Corpo e voz estão diretamente relacionados à construção da identidade, pois é através deles que identificamos o espaço que ocupamos e também aquele que desejamos ocupar”.
Dessa forma, a declamação poética surge como uma atividade de autoconhecimento. Ao compartilhar sentimentos, ideias e experiências diante de outras pessoas, os participantes exercitam a empatia, a sensibilidade e a autoconfiança. “A declamação de poesia autoral nos coloca em uma posição vulnerável perante a plateia, porque estamos expondo sensibilidades internas. É uma ação que demanda coragem e, justamente por isso, fortalece a confiança da criança em si mesma”, conta Tulasi.
Potência cultural do interior
Para Uyara Queiroz, produtora cultural do Instituto Bororó, parceiro do festival, iniciativas culturais realizadas fora dos grandes centros são fundamentais para revelar a potência criativa existente no interior. Segundo ela, cidades históricas como Pirenópolis carregam memória forte, muitas vezes associada apenas ao turismo ou às tradições mais consolidadas, enquanto as produções contemporâneas enfrentam desafios de circulação e visibilidade.
Nesse contexto, o In-Verso incentiva crianças e adolescentes a reconhecerem o valor de suas próprias experiências e do território onde vivem. “ Eles percebem que o que vivem, sentem e pensam também têm valor e podem se transformar em arte. Ao valorizar histórias, sentimentos e vivências locais, fortalecemos o sentimento de pertencimento e revelamos narrativas autênticas e universais”.
Fotos por Aline Lino e Janaína Felipe







