
Marcio Fernandes
Se fosse realizado um concurso do parque mais desarrumado de Goiânia, o Bosque dos Buritis, entre o Centro e o Setor Oeste, seria uma grande escolha. A unidade ambiental tem em seu favor um passado de desleixo da Prefeitura de Goiânia e do mau uso da sociedade. Exemplo é a precariedade do alambrado que o envolve e divide. Precisa de uma recuperação ampla com o emprego de tecnologia de segurança ambiental. Israel tem isso pronto para vender sem precisar inventar moda.
Parques ambientais em qualquer lugar qualificado do mundo são áreas estratégicas da operação de sistemas de segurança de alto padrão de confiabilidade. No bosque, há uma viatura da Guarda Municipal com agentes adeptos do policiamento ostensivo armado no modo água parada. Eu nunca vou entender a capacidade brasileira de instalar recursos improdutivos.
O piso, na entrada do lago norte, onde transitam crianças e idosos, está desmanchando há pelo menos meia década. A falta de noção da política ambiental que governa o bosque foi por mim fotografada nos troncos de uma árvore sacrificada. Eles foram deixados sobre o leito do Córrego dos Buritis, justamente onde ele se despede do bosque e vai desaguar no Córrego Capim Puba, contribuinte do Rio Meia Ponte. A chance dessa massa de material causar um evento negativo é real. É só consultar um engenheiro ambiental qualificado para fazer o cálculo de risco.
Os troncos seriam uma ótima matéria-prima, natural e de baixo custo, para substituir as barreiras de contenção das encostas do lago sul. Elas estão apodrecidas e algumas são feitas de placas de lata descartadas da publicidade oficial da prefeitura. É uma improvisação com prazo de validade vencido de fazer chorar. Quando chove muito, o solo do bosque vira lama, desce com força sobre a parte concretada do ambiente e forma uma corrente triangular de água suja na qual a garça aproveita a oportunidade para jantar.
A ocupação do interior do bosque para prática de sexo é alguma coisa que não deveria existir por respeito à conservação da natureza humana, das plantas e dos bichos. Parque público não é bordel. Houve uma operação de limpeza na qual foram recolhidos mais de mil preservativos no solo do bosque. Deveria repetir. Uma porcaria ambiental produzida por gente que apoia a palestina livre, não dá um pio sobre o massacre dos libertadores do Irã, está ecologicamente conectada com um xamã da Amazônia Ocidental chamado cacique Waldeci e suja o Bosque dos Buritis.
A situação geral da reserva urbana é de muito ruim à péssima. Há uma acelerada perda de biodiversidade e a infraestrutura está em estado de apodrecimento. Intervenções entre meia-boca e desastrada da administração do prefeito Sandro Mabel pioram a percepção do que vai acontecer ao bosque mais antigo da cidade. Eu fico particularmente desesperado quando algum político promete que vai melhorar o futuro. Com tantos problemas que o Bosque dos Buritis tem o prefeito agora inventou de, uma vez por mês, instalar uma feira de churrasquinho e artesanato marreta por lá. É a revitalização do parque pela jantinha.
A reserva ambiental foi desenhada no projeto de Attilio Corrêa Lima com uma área de 400 mil metros quadrados e hoje está reduzida a 31,2% do plano original. Como o estado no Brasil é o principal infrator das normas que edita, o decreto-lei nº 90-A de 30 de julho de 1938, que previa ser inalienável a área do bosque, foi burlado por instituições sobretudo públicas e religiosas, além de empreendedores e invasores.
Nada a lamentar, já que a expansão da cidade exigiu que uma área do parque, isso em meados do século passado, fosse entregue à igreja católica, aos três poderes e aos empresários que lotearam os setores Sul e Oeste. Estão situados na área original do Bosque dos Buritis o Colégio Ateneu Dom Bosco, o Externato São José, o Tribunal de Justiça, a antiga Assembleia Legislativa e o Museu de Arte de Goiânia. No começo da cidade, o bosque abrigou habitações precárias que formavam favelas na área de conservação e contaminavam com lixo e esgoto doméstico aquela área que já foi uma imensa várzea no centro de Goiânia.

Hoje o que interessa é saber o quanto ainda vão ser conservados os 124,8 mil metros quadrados que restaram da reserva mais bonita da cidade, que tem vocação para ser uma área de piquenique e cenário da produção fotográfica de noivos. Não é verdade afirmar que o bosque está historicamente abandonado. Em 2018, a Prefeitura de Goiânia realizou um plano de manejo muito bem-elaborado, mas que ficou no papel.

O documento era para ter norteado as ações das administrações seguintes, conforme um planejamento de estado detalhado de soluções para os problemas da reserva e de objetivos avançados de política ambiental. Nada aconteceu e a natureza não suporta tantos desaforos. Como resultado, a degradação geral do bosque tem sido contínua e acelerada.

O principal é a perda de biodiversidade. A cobertura vegetal, razão de existir de reserva, vem sendo devastada pelo uso indevido da sociedade e por intervenções de poda baseadas no achismo de derrubar árvores centenárias, mas sem um plano de manejo do ecossistema. Ou seja, cada vez mais há menos flora para uma fauna de várzea que resiste galhardamente ao prejuízo do seu ambiente natural. Tem lá o martim-pescador, o biguá, uma garça, as ariscas saracuras-três potes e de vez em quando aparece um socó-dorminhoco.

Tem peixe para todo mundo e até aí a cadeia alimentar parece funcionar, sem a participação da Prefeitura, para parte dos bichos originários do Bosque dos Buritis e dos importados. No lago sul tem exóticos pirarucus. O problema é que toda essa bicharada, na verdade, tem uma fonte de alimentação primária composta de pipoca e do lixo de batata industrializada levado todos os dias por visitantes e turistas. Uma expressiva população de patos rasteja obesa e preguiçosa entre os distribuidores alegres de junk food. Enquanto isso, os cágados não se dão ao trabalho de buscar comida no lago, já que o pessoal oferece alimento de plástico na orla com gratidão.

Todo parque ambiental tem de ter uma política de manejo. É o estabelecimento de regras de zoneamento de uso, rigoroso critério científico de conservação da fauna e flora, controle de qualidade das águas, emprego do poder de polícia e convencimento da sociedade de que a reserva é uma aliada da qualidade de vida e deve ser respeitada. O bosque é uma lixeira da feira que funciona ali duas vezes por semana. As frutas podres são descartadas na mata e ninguém faz nada. Tem laranja, pêssego, ameixa e melancia basicamente contaminando a floresta que nos resta.
Mas o que fazer se não há regras na vereda da inoperância administrativa? Sugerir à Prefeitura de Goiânia a execução do plano de manejo de 2018 realizado por ela mesma. Está pronto o que deveria estar sendo feito há oito anos. O prefeito podia muito bem partir do planejamento proposto, que custou dinheiro público, para fazer do Bosque dos Buritis uma unidade-padrão de governança ambiental. Um exemplo para a América Latina já estaria bom. Ele está precisando de uma obra bem-feita. Há um enorme interesse público na inciativa e o Sandro Mabel tem grande chance de acertar.
Marcio Fernandes é jornalista







