
Governador de Goiás tenta ocupar um espaço entre Lula e o bolsonarismo, mas precisa transformar o discurso de terceira via em força eleitoral para alterar a lógica da disputa presidencial
A eleição presidencial de 2026 começa a apresentar uma velha conhecida da política brasileira: a tentativa de construção de uma terceira via. Desta vez, porém, há um personagem que reúne condições políticas mais concretas para tentar essa travessia. Ronaldo Caiado não esconde que pretende disputar um espaço próprio entre o lulismo e o bolsonarismo. Não se apresenta como candidato de esquerda, tampouco aceita a ideia de que toda a direita brasileira precise necessariamente estar subordinada à família Bolsonaro. Sua aposta é simples na formulação, mas extremamente difícil na prática: ser oposição a Lula sem ser bolsonarista e representar uma direita conservadora sem carregar o peso da polarização que domina o país há anos.
Caiado parte de uma vantagem que poucos candidatos de terceira via tiveram em eleições anteriores: tem uma história política própria. Não surgiu agora para ocupar um espaço eleitoral disponível. Foi deputado, senador, líder partidário e governador de Goiás. Construiu uma identidade política ao longo de décadas e governa um Estado que apresenta resultados administrativos capazes de sustentar seu discurso. Essa experiência lhe permite vender uma ideia diferente daquela tradicionalmente associada às candidaturas de centro: não se trata de ficar equidistante de todos, mas de apresentar um caminho alternativo ao confronto permanente entre dois grupos políticos. É uma diferença importante.
O problema está nos números. Uma terceira via só deixa de ser uma tese política quando passa a representar uma possibilidade eleitoral concreta. E, neste momento, Caiado ainda está distante disso. As pesquisas nacionais o colocam em torno de 4%, enquanto Lula e Flávio Bolsonaro concentram a maior parte das intenções de voto. O dado, entretanto, não encerra a discussão. Ele mostra apenas o tamanho do desafio. A eleição ainda está em formação, e uma candidatura que pretende romper uma polarização precisa primeiro convencer o eleitor de que é viável. O voto útil é uma das maiores barreiras para qualquer terceira força: o eleitor pode até desejar uma alternativa, mas tende a abandonar essa opção quando acredita que ela não tem condições de chegar ao segundo turno.
É justamente por isso que a estratégia de Caiado é mais sofisticada do que simplesmente se apresentar como candidato de centro. Seu movimento é tentar disputar o eleitorado conservador que não se identifica com o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, alcançar setores moderados que rejeitam a continuidade do governo Lula. Esse é um território politicamente amplo, mas eleitoralmente difícil de organizar. O governador precisa fazer algo que poucos candidatos conseguiram: construir uma identidade suficientemente forte para não ser confundido com nenhum dos dois polos e, ao mesmo tempo, suficientemente ampla para atrair eleitores dos dois lados.
A reação do bolsonarismo às críticas de Caiado revela que esse espaço existe — e que é disputado. Se não representasse uma ameaça potencial, Caiado não precisaria ser combatido com tanta intensidade. O problema é que, ao enfrentar o bolsonarismo, ele corre o risco de perder justamente o eleitorado conservador que precisa conquistar. Se, por outro lado, suavizar demais as críticas para preservar esse eleitor, poderá parecer apenas mais um candidato tentando ocupar o mesmo campo. A equação é delicada: Caiado precisa se diferenciar de Bolsonaro sem transformar sua candidatura numa campanha contra Bolsonaro. Precisa se opor a Lula sem parecer que sua única razão de existir é derrotar o presidente.
No fundo, a candidatura de Caiado representa uma pergunta que a eleição de 2026 terá de responder: o Brasil está condenado a escolher entre Lula e o bolsonarismo? Se a resposta for não, haverá espaço para uma alternativa. Se a resposta for sim, a terceira via será novamente reduzida a uma candidatura testemunhal. Caiado tem, portanto, uma missão maior do que simplesmente disputar a Presidência. Ele tenta provar que existe vida política fora da guerra entre os dois extremos que dominaram o debate nacional. Hoje, os números ainda não permitem dizer que conseguiu. Mas seria precipitado tratar sua candidatura como irrelevante. A verdadeira força de Caiado estará em transformar o cansaço com a polarização em voto. Se conseguir fazer isso, poderá não apenas disputar o segundo turno: poderá alterar a própria lógica da eleição presidencial.







