Alexandre GuilhermeColunaLendas

Santo Antônio

  • A chegada religiosa e folclórica ao Brasil sempre traz brasas enraizadas, como a calmaria que inspira as rezas veladas, de chagas cicatrizadas que caracterizam as ruínas do que separa e do que une, na troca de passos concedida pelo benzimento dos aflitos, entre vidros carimbados em busca de seu encanto de fraternidade.

 

Todo dia 13 de junho comemora-se o Dia de Santo Antônio, celebrado pela Igreja Católica e por uma tradição muito forte entre os fiéis. Até mesmo quem não é católico costuma abraçar essa cultura em busca de alguma graça, como um casamento, já que Santo Antônio é conhecido como o santo casamenteiro. Outros recorrem a ele em busca de prosperidade ou para encontrar objetos perdidos.

 

Há uma história muito contada pelas bandas da Fazenda Fartura. Nela havia um casal de idosos, muito devoto de Santo Antônio, que morava em um ranchinho naquela região. Eles possuíam um belo altar dedicado ao santo e, quando se aproximava o dia de sua festa, rezavam a ladainha e a trezena de Santo Antônio. Toda a população da região participava da celebração realizada no rancho do casal.

 

Os idosos tinham um neto de 15 anos, que criavam como filho. O rapaz conhecia toda aquela região e vivia andando pelos pastos montado em um belo corcel negro, que cavalgava desde pequeno. O animal era seu único amigo.

 

Certo dia, o jovem montou em seu corcel e foi até a cidade em busca de um belo cinto para sua nova calça. Encontrou um cinto caríssimo e o comprou. Na volta para o rancho dos avós, parou em um riacho de águas limpas para se refrescar. Debaixo de uma grande árvore, acabou adormecendo.

 

Quando despertou, não encontrou mais o corcel negro. Procurou o animal durante vários dias, mas não conseguiu encontrá-lo.

 

Sem achar seu companheiro, resolveu ir ao altar de seus avós. Pegou um galhinho de guiné e o colocou nas costas da imagem de Santo Antônio. Então disse:

 

— Santo Antônio, você tem 24 horas para achar o meu corcel negro.

 

Mas o santo não atendeu ao pedido do rapaz.

 

No outro dia, bem cedo, vendo que o corcel ainda não havia aparecido, o jovem ficou muito bravo. Vestia sua calça nova e o belo cinto recém-comprado. Num acesso de raiva, tirou o cinto da cintura e deu uma cintada nas costas da imagem de Santo Antônio.

 

Dizem que Santo Antônio pensou:

 

— Se me afogam, eu aguento. Se me tomam o Menino Jesus dos braços, eu me calo. Mas uma cintada nas costas eu não aceito. Vou dar uma lição nesse rapaz.

 

Imediatamente, o corcel apareceu diante do jovem. Feliz da vida, ele montou no animal e saiu galopando pelos pastos. Porém, pouco tempo depois, levou um tombo do cavalo, que jamais o havia derrubado. Seu corpo ralou dos pés à cabeça e ele sofreu muitos ferimentos.

 

Durante três dias ficou machucado e dolorido. No terceiro dia, foi até o altar de Santo Antônio e falou:

 

— Santo Antônio, tire estas feridas de mim e, todos os anos, darei uma cesta básica a um necessitado. E, a partir de hoje, nunca mais usarei cintos em minhas calças.

 

Em seguida, jogou fora o cinto que havia comprado.

 

Com o passar do tempo, suas feridas começaram a cicatrizar. O rapaz cumpriu sua promessa e nunca mais quis desafiar Santo Antônio.

 

E assim a história atravessou gerações, sendo contada de boca em boca pelas bandas da Fazenda Fartura, como prova de que, com os santos, é melhor pedir com fé do que exigir com arrogância.

 

Escrito por Alexandre Guilherme

 

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