Alexandre GuilhermeColunaLendas

O Taumaturgo

A espera do nada pode ser a construção da fé que devasta as pedras simuladas.

No século passado, em pequenas cidades do interior, havia a tradição dos padeiros fazerem os pães e entregá-los bem cedo nas janelas dos moradores. Alguns até soltavam um grito cantado pelas ruas:

— Olha o pão assado na brasa da paixão, que a lenha conduz com coração!

Em uma dessas pequenas cidades, repleta de histórias e costumes antigos, vivia um padeiro já de idade avançada. Todas as madrugadas, ele acordava cedo para assar os pães, colocá-los em um cesto sobre a cabeça e sair entregando-os pelas casas.

Porém, os moradores quase não entendiam o que ele dizia, pois possuía uma voz extremamente fanhosa. Mesmo assim, insistia em fazer seu grito cantado. Muitas pessoas zombavam dele por causa de sua voz, humilhando-o pelas ruas. Ainda assim, o velho padeiro jamais abaixava a cabeça. Era devoto de Santo Honorato e, antes de começar o trabalho, fazia sempre suas orações com profunda fé.

Certo dia, três rapazes que costumavam caçoar dele decidiram lhe pregar uma peça cruel. Combinaram trocar o cesto de pães por outro idêntico, cheio de pedras grandes, pesadas o suficiente para que ele nem conseguisse equilibrá-lo na cabeça.

Chegou a madrugada. O padeiro fez suas orações, preparou os pães e os colocou no cesto. Nesse momento, os três rapazes apareceram. Enquanto um distraía o velho, os outros dois realizaram a troca.

Sem perceber nada, o padeiro pegou o cesto trocado, colocou-o na cabeça e saiu tranquilamente pelas ruas, entregando os pães de casa em casa. Os rapazes, certos de que ele seria humilhado pela cidade inteira, foram esperar na praça central, rindo do pobre trabalhador.

Horas depois, o padeiro apareceu na praça, sereno e sorridente.

Surpresos, os rapazes perguntaram:

— O senhor não foi xingado pelos moradores?

O padeiro respondeu calmamente:

— Não. Entreguei os pães como faço todos os dias.

Confusos e desconfiados, os jovens arrancaram o cesto de sua cabeça e o abriram com brutalidade. Para espanto deles, o cesto estava repleto de pães ainda mais bonitos e saborosos do que os que o padeiro costumava fazer.

Tomados pelo medo e pela culpa, os três rapazes caíram de joelhos aos pés do velho homem, acreditando estar diante de alguém abençoado por Deus.

Naquele dia, nunca mais zombaram de ninguém.

Porque a fé verdadeira é tão profunda que consegue transformar pedras em pão e curar até a fúria do coração humano.

Escrito por Alexandre Guilherme

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