Alexandre GuilhermeColunaLendas

O Afeto

Lá fora, a chuva caía em gotas lentas, como se o céu tentasse afogar antigas mágoas escondidas sob o peso da verdade. O vento atravessava a mata com um lamento profundo, enquanto os galhos se curvavam como se guardassem segredos que jamais poderiam ser revelados.

 

Naquele dia, um jovem casal atravessava clandestinamente uma floresta densa e quase impenetrável. Nos braços da mulher repousava uma menina recém-nascida, de pele alva como a neve e olhos ainda incapazes de compreender o mundo. A mata parecia rejeitar a presença humana, fechando suas trilhas atrás de cada passo.

 

A chuva aumentava. O chão transformava-se em lama, apagando pegadas e confundindo qualquer possibilidade de retorno. Exaustos, decidiram acomodar a criança em uma pequena cavidade protegida pelas raízes de uma enorme árvore, acreditando que ali ela estaria segura enquanto procuravam uma passagem entre as rochas.

 

Foi então que a tragédia aconteceu.

 

Um estrondo rompeu o silêncio da floresta. Uma gigantesca tromba-d’água desceu montanha abaixo com violência devastadora, arrastando tudo em seu caminho. O casal desapareceu nas corredeiras sem qualquer chance de escapar.

 

Restou apenas a criança.

 

Seu choro ecoava pela mata, misturado ao som da tempestade. Tremia de frio, de fome e de abandono, sem sequer compreender a ausência daqueles que lhe haviam dado a vida.

 

Pouco tempo depois, um bando de lobos aproximou-se cautelosamente. À frente vinha a velha loba matriarca. Ela farejou a menina, caminhou ao seu redor e, em vez de demonstrar agressividade, deitou-se ao seu lado. Seu corpo quente envolveu a criança, que lentamente cessou o choro.

 

Movida por um instinto que ultrapassava qualquer explicação, a loba passou a amamentá-la como se fosse um de seus filhotes.

 

Naquele instante, nasceu um vínculo mais forte que o sangue.

 

Os anos passaram.

 

A menina cresceu entre os lobos. Aprendeu a correr descalça pelas pedras, a sentir o cheiro da chuva antes que ela caísse, a distinguir o perigo pelo vento e a respeitar as leis da floresta. Aprendeu a caçar, a proteger sua alcateia e a uivar para a lua cheia, celebrando a liberdade que jamais conhecera entre os homens.

 

Tornou-se uma mulher de extraordinária força e beleza selvagem. Embora possuísse forma humana, carregava em sua essência a alma de uma loba. Todos os animais da alcateia a respeitavam, e a velha matriarca observava sua filha adotiva com orgulho.

 

Entre os lobos havia um macho jovem e vigoroso que, desde cedo, demonstrava um afeto diferente por ela. Caminhavam juntos, caçavam lado a lado e dividiam o silêncio das noites iluminadas pela lua. Entre eles nasceu um amor puro, livre das palavras, construído apenas pela lealdade.

 

Entretanto, vinte anos após o desaparecimento do casal, um grupo de exploradores voltou à floresta. Eram guiados pelos familiares da menina, que jamais desistiram de procurá-la.

 

Quando finalmente a encontraram, ela não reconheceu nenhum daqueles rostos.

 

Para ela, família era a alcateia.

 

Os homens insistiram em levá-la de volta à civilização. Ela resistiu com todas as forças. Os lobos atacaram para protegê-la, travando uma batalha feroz. Mesmo assim, diante das armas de fogo, foram vencidos, e a jovem foi arrancada da única vida que conhecia.

 

Na cidade, tudo lhe parecia estranho.

 

As roupas incomodavam seu corpo. As paredes lhe causavam angústia. O barulho das ruas substituía o canto dos pássaros. Ela não compreendia os costumes humanos e, todas as noites, chorava olhando para a lua.

 

Enquanto isso, o lobo que a amava atravessou a floresta em busca dela.

 

Ao chegar aos limites da cidade, revelou sua verdadeira natureza: era um ser capaz de assumir forma humana. Transformou-se em um belo rapaz e encontrou a mulher que jamais deixara de amar.

 

Quando seus olhos se cruzaram, ela o reconheceu imediatamente.

 

Correu até ele e o abraçou com lágrimas de felicidade.

 

— Quero voltar para casa — sussurrou.

 

Mas seus familiares impediram sua fuga.

 

Ao vê-la aprisionada, o rapaz atacou para libertá-la. O confronto foi inevitável. Um disparo ecoou, e ele caiu gravemente ferido.

 

No mesmo instante, a alcateia surgiu entre as sombras.

 

Os lobos cercaram a propriedade, enfrentaram os homens e conseguiram resgatar a jovem, levando-a novamente para a floresta.

 

O rapaz, porém, desapareceu.

 

Ferido, foi encontrado por uma jovem enfermeira, prima da mulher-loba, que desconhecia sua verdadeira origem. Ela cuidou dele durante semanas, até que se recuperasse completamente.

 

Com o tempo, nasceu entre os dois um amor inesperado.

 

Ele decidiu permanecer na forma humana, casou-se com a enfermeira e construiu uma nova vida na cidade.

 

Já a mulher-loba retornou definitivamente à floresta.

 

Jamais voltou a pisar entre os homens.

 

Dizem que, em toda noite de lua cheia, um longo uivo atravessa os vales e ecoa pelas montanhas.

 

Alguns acreditam que seja apenas o chamado de uma loba.

 

Outros dizem que é o canto eterno de um coração que aprendeu que o verdadeiro afeto nem sempre permanece ao nosso lado.

 

Às vezes, amar também significa aceitar que até mesmo os laços mais profundos podem seguir caminhos diferentes.

 

Escrito por Alexandre Guilherme

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