Conto: Ressuscitado

Em um cemitério de defuntos vivos, havia um que já estava morto antes mesmo de nascer, pois o casulo era incompleto. Não tinha o veneno da liberdade, por ter sido comprado na farinha seca do barro descascado, e nunca encontrou o esteio do pitoresco que alimenta-se o verso.
Mas, mesmo assim, este defunto falecido assoprava sobre os defuntos vivos, fazendo balançar as correntes da engrenagem que movia a porta da tumba da sobrevivência, que saía carregando o jaca cheio de amoras, purificadores dos espectros vendidos por um barril de pólvora que alimenta a cova de plantas forjada do coração.
Mas havia um defunto ressuscitado do seu alinhamento que não obedecia ao sopro do defunto morto. O defunto ressuscitado já estava condecorado ao desejo do tempo, então o defunto morto aprisiona a áurea, a amada do defunto ressuscitado, na sepultura da sombra sonora.
E o defunto ressuscitado se transforma numa metamorfose de lareira infinitamente acesa por chorar todos os dias pela sua amada, e chega a transformar a claridade numa toada de brilhos eternos que nem o consentimento dos poemas pode cantar junto às estrelas do céu.
O defunto falecido, por si só, continua a assoprar sobre os defuntos vivos, mas não pode dormir, por ter perdido a escuridão, seduzida pela bendita claridade suave e ponderada ao ponto do arredio dos gritos místicos.
Escrito por Alexandre Guilherme
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