Alexandre GuilhermeColunaLendas

A Transformação

Por Alexandre Guilherme

Um escoamento sobre as madeixas do vento, que revoga a obra do momento sedado e conduz o íntimo significativo ao movimento ativo do deserto cativado. Um sopro que carrega o instinto de um limite ao expoente daquilo que cresce pela tradição dos independentes.

Certa vez, um cacique reuniu as crianças de sua tribo para uma roda de histórias. Sentados em círculo, os pequenos aguardavam, curiosos, o momento em que o ancião abriria as portas do conhecimento por meio de seus relatos. Era um ritual de partilha, em que as crenças, os costumes e os ensinamentos dos antepassados encontravam espaço nas palavras.

Naquele dia, o cacique decidiu contar a história de uma índia que não aceitava seus longos cabelos anelados. Na tradição de sua tribo, os cabelos encaracolados eram uma herança ancestral, mas ela se sentia incomodada com a própria aparência. A cada dia, crescia dentro dela uma revolta contra aquilo que considerava uma imposição de sua origem.

Inquieta, procurou o pajé da tribo em busca de orientação.

— Meu espírito não encontra paz com estes cabelos. Desejo que sejam diferentes. O que devo fazer?

O pajé a observou em silêncio e, depois de alguns instantes, respondeu:

— Tome um chá de jagube. Entre em contato com seu próprio espírito. Talvez, no silêncio de sua alma, encontre a resposta que procura.

A índia preparou o chá e tomou um gole. Pouco depois, mergulhou em um transe profundo, no qual sentiu a presença de seu próprio espírito. Em meio àquela experiência, recebeu uma orientação:

— Procure a banha de um quati e passe-a em seus cabelos durante a entrada da lua nova. Seus fios se tornarão lisos como a seda.

Ao despertar, no dia seguinte, a índia partiu em busca do animal. Percorreu trilhas, atravessou a mata e vasculhou os arredores, mas não encontrou nenhum quati.

Cansada, entrou em uma gruta. Para sua surpresa, encontrou ali um saci, saltitante e travesso. Ela contou toda a sua história, revelando o desejo de transformar os cabelos.

O saci ouviu atentamente e abriu um sorriso malicioso.

— Tenho uma banha de quati em minha garrafa mágica. Posso entregá-la a você, mas, em troca, quero um saco de fumo para o meu cachimbo.

A índia voltou correndo para casa. Procurou o fumo que guardava e, depois de encontrá-lo, retornou à gruta. Entregou o saco ao saci, que lhe ofereceu uma garrafa escura.

— Aqui está o que procura. Dentro dela está a banha de quati.

Assim que entregou a garrafa, o saci desapareceu diante de seus olhos.

A índia correu para casa, ansiosa para realizar seu desejo. Naquela noite, espalhou a suposta banha pelos longos cabelos e enrolou uma toalha branca sobre a cabeça. Permaneceu assim durante toda a noite, sob a força simbólica da lua nova.

Na manhã seguinte, dirigiu-se ao rio. Retirou a toalha e começou a lavar os cabelos. Para sua surpresa, os fios estavam lisos como seda. Entretanto, algo inesperado aconteceu: seus cabelos haviam adquirido uma tonalidade avermelhada.

Quanto mais os lavava, mais intensa se tornava a cor.

Tomada pela raiva, a índia decidiu voltar à gruta para confrontar o saci. Esperou por um momento de distração e, sorrateiramente, apoderou-se do cachimbo dele, quebrando-o em vários pedaços.

O saci, enfurecido, soltou um grito que ecoou pelas paredes da gruta.

— Por sua insolência, toda a sua geração, seus filhos e seus descendentes, carregarão cabelos de quati!

Em seguida, soltou uma gargalhada estrondosa e desapareceu no ar.

O cacique fez uma pausa. As crianças, atentas, aguardavam o desfecho da história.

Então, com a voz serena, concluiu:

— É por essa razão, meus pequenos, que carregamos a tradição dos cabelos lisos e vermelhos. Uma transformação que nasceu do desejo, encontrou a magia e se tornou parte da história de nosso povo.

As crianças permaneceram em silêncio por alguns instantes, absorvendo o ensinamento. Naquela roda, compreenderam que cada história carrega não apenas um acontecimento, mas também as marcas das escolhas, dos desejos e das consequências que atravessam as gerações.

Escrito por Alexandre Guilherme

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