A Cachaça

# A Cachaça
Mais do que tudo, os vaga-lumes subiam naquela noite, como pequenos pontos de luz perdidos na escuridão. O cheiro da cana-de-açúcar se misturava ao ar, enquanto, ao longe, o silêncio era quebrado pelo movimento daqueles que procuravam na bebida um alívio para os próprios males.
Havia, naquela região, um homem que possuía uma pequena propriedade onde fabricava cachaça artesanalmente. Era conhecido como vendedor de água-ardente e, todos os dias, recebia pessoas que apareciam em busca de uma dose — principalmente os chamados “pés inchados”, homens acostumados a viver entre o balcão, a garrafa e a embriaguez.
Eles chegavam atraídos pelo cheiro do álcool, como se aquele aroma fosse capaz de despertar alguma coisa dentro deles e acalmar a abstinência.
Entre todos os frequentadores, porém, havia um que era especialmente insistente.
Todos os dias, ele aparecia na propriedade.
— Me dá uma dose de cachaça?
O dono, para se livrar da perturbação e não incomodar os outros clientes, acabava entregando o que ele pedia.
— Está aqui. Agora vá embora.
No dia seguinte, lá estava o homem novamente.
— Me dá uma dose?
E assim acontecia todos os dias.
O dono da cachaça começou a perder a paciência.
— Vou dar um jeito nesse sujeito — resmungou. — Esse pé inchado está me perturbando demais. Mas o que posso fazer?
Depois de muito pensar, teve uma ideia.
— Já sei! Vou dar uma dose de metanol para ele. Assim, vai achar a bebida ruim, desistirá de voltar e finalmente me deixará em paz.
No dia seguinte, como de costume, o homem apareceu.
— Bom dia! Me dá uma dose?
O dono pegou a garrafa de metanol, colocou uma pequena quantidade no copo e entregou ao homem.
— Hoje tenho uma dose especial para você. Tome e vá embora.
O homem virou o copo de uma vez. Parou por alguns segundos, manteve a bebida na boca como quem apreciava o sabor, engoliu lentamente e fez uma careta.
O dono ficou esperando sua reação.
Então o homem perguntou:
— Não tem uma mais forte, não? Essa cachaça está muito fraca!
O dono ficou de boca aberta.
No dia seguinte, repetiu a experiência.
Outra dose de metanol.
O homem tomou.
— Está fraca de novo! Cadê a outra?
E aquilo se repetiu por mais de uma semana.
O dono já não sabia mais o que pensar.
Até que, completamente irritado, decidiu desistir da ideia e lhe deu uma dose verdadeira de cachaça.
O homem tomou, degustou tranquilamente e, para surpresa do dono, fez uma expressão de desapontamento.
— Essa está mais fraca ainda! Eu gostava mais daquela outra que você estava me dando.
O dono ficou sem palavras.
Foi então que percebeu a verdade: aquele homem não estava procurando exatamente cachaça. Ele era dependente de qualquer tipo de álcool e seu organismo já estava tão acostumado à bebida que nem mesmo aquela mistura aparentemente forte era capaz de afastá-lo.
O dono havia tentado assustar o “pé inchado”, mas acabou descobrindo que seu plano tinha saído completamente pela culatra.
E naquele dia aprendeu uma lição que jamais esqueceria:
**quando um vício domina alguém, nem sempre é a bebida que escolhe o homem — às vezes, é o homem que já não consegue mais viver sem ela.**
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