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O Brasil e a falência do interdito

Por Maristela Basso

 

Um em cada quatro adolescentes brasileiros relata já ter sofrido abuso sexual.

O número choca. Mas, mais do que isso, revela.

 

Não se trata apenas de crime.

Trata-se de sintoma.

 

A proteção da infância nunca foi natural.

É uma construção.

E depende de um limite claro: o interdito.

 

Desde Sigmund Freud, sabemos que a proibição do incesto não é uma regra qualquer.

É o primeiro grande “não” da civilização.

É o limite que transforma impulso em convivência.

É o que separa humanidade de barbárie.

 

Sem esse limite, não há cultura — há regressão.

 

O que os dados brasileiros indicam é inquietante.

O interdito já não opera com a mesma força.

 

Quando o abuso deixa de ser exceção e ganha escala, o problema muda de natureza.

Ele deixa de ser desvio individual.

Passa a ser falha estrutural.

 

E falhas estruturais não se explicam — se enfrentam.

 

A leitura freudiana não autoriza indulgência.

Ao contrário.

Ela mostra que a civilização existe para conter.

 

O desejo, por si só, não civiliza ninguém.

O que civiliza é o limite.

 

Quando o limite enfraquece, o que emerge não é liberdade.

É violência.

 

O Brasil contemporâneo oferece sinais claros desse enfraquecimento.

Erotização precoce.

Exposição infantil banalizada.

Silêncio dentro de estruturas familiares.

Assimetrias de poder naturalizadas.

 

O que deveria ser impensável passa a ser invisível.

E o invisível, aos poucos, se torna tolerável.

 

É assim que a barbárie avança: não pelo choque, mas pela normalização.

 

Uma sociedade não se mede pelo que permite aos adultos.

Mede-se pelo que protege nas crianças.

 

Quando essa proteção falha, não é apenas a infância que está em risco.

É o próprio pacto civilizatório.

 

E aqui entra uma dimensão que não pode ser ignorada.

 

A proteção da infância não é apenas um valor moral.

É um dever jurídico.

 

A Constituição impõe ao Estado, à família e à sociedade a obrigação de proteger crianças e adolescentes contra toda forma de violência.

O Estatuto da Criança e do Adolescente não é simbólico — é vinculante.

 

Quando um em cada quatro adolescentes relata abuso, não estamos apenas diante de uma tragédia social.

Estamos diante de um possível fracasso institucional.

 

Porque o interdito, quando deixa de operar no plano simbólico, precisa ser garantido no plano jurídico.

 

E quando nem um nem outro funcionam, o que resta não é ambiguidade.

É responsabilidade.

 

Uma civilização não colapsa de uma vez.

Ela se desgasta nos limites que deixa de impor.

 

E poucos limites são tão decisivos quanto aquele que protege a infância.

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