Márcio Corrêa desafia direção do PL e divide apoios entre MDB e PL

Prefeito de Anápolis apoia Daniel Vilela para o governo, Flávio Bolsonaro para a Presidência e distribui seus votos entre nomes dos dois partidos nas disputas para Senado e Câmara.
O prefeito de Anápolis, Márcio Corrêa (PL), consolidou uma estratégia eleitoral que desafia a lógica tradicional de alinhamento partidário. Filiado ao PL, partido que lançou Wilder Morais ao governo de Goiás, Márcio decidiu apoiar Daniel Vilela (MDB) para o Palácio das Esmeraldas, mas mantém seu voto no campo bolsonarista para a Presidência e para uma das vagas ao Senado.
O mapa eleitoral do prefeito mostra uma divisão calculada. Para presidente, Márcio declarou apoio a Flávio Bolsonaro (PL). Para governador, escolheu Daniel Vilela. No Senado, anunciou apoio a Gustavo Gayer (PL) e ainda mantém aberta a segunda vaga. Para deputado estadual, apoia Amilton Filho (MDB). Já para deputado federal, divide seu apoio entre Célio Silveira (MDB) e Major Vitor Hugo (PL).
A composição deixa evidente que Márcio não pretende transformar sua filiação partidária em uma obrigação de voto em bloco. O prefeito parece seguir uma lógica própria, baseada em relações políticas construídas ao longo dos últimos anos e, principalmente, em seus interesses e alianças em Anápolis.
O ponto de maior tensão, evidentemente, é a escolha de Daniel Vilela. O PL tem candidato próprio ao governo e a direção estadual já reagiu ao posicionamento do prefeito, convocando sua Executiva para discutir o caso e possíveis medidas disciplinares. A reunião está marcada para quinta-feira, dia 27.
A situação coloca o partido diante de uma escolha delicada. Punir Márcio pode significar reafirmar a autoridade da legenda e deixar claro que uma candidatura própria exige disciplina dos filiados. Ao mesmo tempo, uma punição severa contra o prefeito da terceira maior cidade de Goiás pode ampliar ainda mais o desgaste interno e transformar uma divergência eleitoral em uma crise política de maiores proporções.
Márcio parece ter consciência desse peso. Anápolis não é uma cidade qualquer no tabuleiro eleitoral de Goiás. O município possui um eleitorado expressivo, forte influência regional e histórico de participação decisiva em eleições majoritárias. O apoio do prefeito, portanto, tem potencial para irradiar efeitos para além dos limites municipais.
A estratégia também revela uma característica importante da eleição de 2026: as alianças municipais nem sempre obedecem à lógica das direções partidárias estaduais. Prefeitos administram relações institucionais, interesses locais e projetos para seus municípios. Na prática, isso pode produzir combinações eleitorais diferentes das alianças estabelecidas formalmente pelos partidos.
No caso de Márcio, a divisão não parece ser fruto de improviso. O próprio prefeito relaciona algumas escolhas a compromissos políticos anteriores. Célio Silveira, por exemplo, assumiu mandato na Câmara temporariamente quando Márcio, então ligado ao MDB, ficou como primeiro suplente nas eleições de 2022. Já o apoio a Major Vitor Hugo está relacionado à articulação que ajudou na filiação de Márcio ao PL antes das eleições municipais de 2024.
O resultado é um mapa político bastante peculiar: PL para presidente, MDB para governador, PL e MDB para deputado federal e MDB para deputado estadual. É uma espécie de federação eleitoral particular construída pelo prefeito de Anápolis.
Para Daniel Vilela, o movimento representa um ganho político expressivo. Ter o apoio de um prefeito filiado ao partido de seu principal adversário demonstra que sua candidatura consegue atravessar fronteiras partidárias e alcançar lideranças que, formalmente, deveriam estar em outro campo.
Para Wilder Morais, porém, o episódio é um problema. O candidato do PL terá de lidar não apenas com a oposição dos adversários, mas também com uma situação em que um dos principais prefeitos da legenda decidiu não acompanhá-lo na disputa pelo governo.
A crise também coloca em evidência a força política individual de Márcio Corrêa. Ao distribuir seus apoios entre dois partidos, o prefeito demonstra que pretende preservar autonomia em relação às direções partidárias e colocar o peso de sua liderança municipal acima das orientações nacionais ou estaduais.
Resta saber até onde essa estratégia poderá avançar. Se o PL optar por confrontá-lo, Márcio terá de administrar uma relação cada vez mais difícil com a legenda. Se o partido preferir acomodar a divergência, poderá transmitir a imagem de que a candidatura de Wilder não consegue impor unidade sequer dentro de sua própria estrutura.
Por enquanto, Márcio escolheu seu caminho. Continua no PL, vota em Flávio Bolsonaro, apoia Gustavo Gayer e Major Vitor Hugo, mas também abre espaço para Daniel Vilela, Amilton Filho e Célio Silveira. Mais do que uma divisão de votos, é uma demonstração de independência política que transforma Anápolis em um dos principais focos da disputa eleitoral de Goiás. (folhaz.com.br)







