Conto: Soberba

Cobrar da fantasia que seja tão realista não faz sentido, quando a própria narrativa se desperta por si só.
Há algo que precisa ser relatado: uma sereia muito orgulhosa por ser bela e formosa ignorava suas únicas irmãs por parte de pai, que nasceram ao relento, sem nada que alimentasse seus tempos. Ainda assim, elas eram alegres, pois eram o próprio fogo da aura que estremecia o mar.
A sereia, toda poderosa, não aceitava a presença das irmãs em seu palacete de púrpura, que mais parecia uma cúpula de culpas, regada de festas em meio a feras que desejavam sua beleza, e ela se sentia única no mar que a conduzia.
Naquele reinado haveria um encontro de sereias de todo o universo, que respirava a beleza dos cantos que a chamavam pelo espaço das glórias. E a sereia toda poderosa queria ser a primeira entre todas, queria ter o melhor vestido entre as companheiras e possuir o maior encanto.
Então, ela ouviu falar de um costureiro chamado Senhor Mexilhão. Resolveu procurá-lo e lhe encomendar um belo vestido. Porém, o Senhor Mexilhão gostaria de receber adiantado. Ela concordou e lhe pagou toda sorridente, dizendo que seria a única com aquela vestimenta.
O Senhor Mexilhão falou que ela nunca esqueceria aquele belo dia. Então começou a trabalhar no vestido encomendado, utilizando um material chamado plástico, algo que aquela região do mar não conhecia. Ele havia encontrado esse material em um lugar distante, onde os homens da terra o descartavam.
O dia do encontro se aproxima, e ela vai até o Senhor Mexilhão para experimentar o vestido.
Ela achou estranho, muito diferente de tudo o que já tinha visto de beleza no mar, mas resolveu experimentar. Quando colocou o vestido no corpo, algo estranho aconteceu: o vestido grudou em sua pele e, devido ao cheiro do óleo, ela começou a se intoxicar e a gritar.
O Senhor Mexilhão, que era trambiqueiro, fugiu do local e a deixou sozinha.
Ela saiu gritando pelo mar, desesperada, e acabou encontrando suas irmãs. Pediu socorro a elas, implorando que lhe salvassem a vida. As irmãs a acolheram com amor e carinho.
Suas irmãs eram as únicas que conheciam as ervas da cura dos males dos homens e também a cura das almas com rezas proféticas. Assim, conseguiram curar a sereia poderosa.
Depois de recuperada, a sereia perguntou:
— Quanto devo a vocês pela cura? O que posso fazer por vocês?
As irmãs lhe responderam:
— Absolutamente nada. Somos felizes do jeito que viemos a este mar. Só lhe pedimos uma coisa, sereia: faça o bem sem olhar a quem.
E a sereia poderosa foi para sua festa, firme e saudável.






