Entrevista: Luís Costa Ribas

20 de maio de 2018

LUÍS COSTA RIBAS é um dos rostos mais conhecidos da televisão portuguesa. Todos assistimos aos seus directos nos telejornais da SIC a partir de Boston, Nova Iorque ou Washington, com notícias sobre o que se passa nos Estados Unidos e no mundo. Em Uma Vida em Directo, «o correspondente dos EUA» partilha reflexões sobre a sua profissão e conta-nos as histórias e episódios de vida mais marcantes da sua longa carreira de jornalista, nos quatro cantos do mundo.

Começou em Maio de 1980 e nunca mais parou, tendo muito para contar sobre Angola, Moçambique, Timor-Leste, Israel, Haiti ou Venezuela. E, claro, sobre os Estados Unidos, para onde foi viver em 1984. Tendo-se cruzado com figuras de primeira grandeza como Bill Clinton, Salman Rushdie, Eusébio ou Savimbi, as histórias mais fortes e dramáticas que testemunhou passaram-se com pessoas sem nome nem rosto, quer sejam as vítimas do furacão Katrina, crianças esfomeadas nas favelas de Lima, ou um homem numa luta desesperada por encontrar a mulher num desabamento de terras na Nicarágua. Episódios que vale a pena conhecer e que agora pode ler em Uma Vida em Directo.

 É licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela Universidade de Maryland (EUA) e mestre em Consultoria Política pela Universidade Camilo José Cela (Madrid)

 Tive o privilegio de conhecer-lo em Luanda, no final de 2014. Na oportunidade, ele passava uma temporada de alguns anos a trabalhar para a empresa Semba e que produziu o documentário sobre a guerra civil daquele país e eu fui fazer uma prestação de serviço de uma semana na área de jornalismo e Comunicação Social para o Ministério do Interior de Angola. É uma pessoa de fácil trato, simples , humilde e com invulgar experiência de vida.

Coronel Fernando Montenegro: Como foi o início da sua carreira?

Luís Costa Ribas: Iniciei a minha carreira em Lisboa, Portugal, no dia 3 de Maio de 1980. Relato no meu livro, “Uma Vida em Directo”, que o meu Pai mostrou-me um pequeno anúncio de jornal onde constava: “Jornalistas precisam-se. Com ou sem experiência”. Chamei o número indicado e pediram-me que fizesse a reportagem do 1 de Maio, Dia do Trabalhador, e regressasse para escrever a reportagem na frente do Chefe de Redacção. Assim fiz, e fui admitido de imediato. O meu pai sabia que eu gostaria de ser jornalista porque adorava escrever, contar histórias e, sendo pessoalmente tímido, era bom comunicador.

CFM: Em quais países esteve a trabalhar como correspondente?

LCR: Fui residente em Lisboa, Washington, Luanda e Boston onde agora vivo. Visitei, no total, mais de 50 países.

Em Timor-Leste, em 2006, com o comandante rebelde Major Alfredo Reinado, morto dois anos mais tarde durente uma tentativa de assassinato do Presidente da República

CFM:  Em quais agencias jornalísticas esteve a trabalhar ao longo desse tempo?

LCR: Trabalhei, e trabalho, na SIC Televisão e emissora americana Voice of America. E, antes, na rádio TSF, emissora católica portuguesa Rádio Renascença, jornal Tempo, jornal A Tarde, agência LUSA, jornal O Independente, jornal O Jornal, revista Visão e jornal Público.

CFM: O que o levou a querer compartilhar suas experiências?

LCR: O gosto pela aventura e por contar histórias. Saber que podia correr para um local de onde outros fugiam e contar aos tele-espectadores / ouvintes / leitores as histórias sobre os locais onde não podiam ir.

Na convenção do Partido Republicano, Cleveland, 2016

CFM: Destaque um momento marcante em cada um dos continentes por onde passou. 

LCR: Há muitos outros momentos, que convido o leitor a descobrir, como, por exemplo, atravessar um furacão num avião C-130 a apenas 10 mil pés de altitude. Em Portugal foi certamente, em plena reportagem da visita de João Paulo II, interromper o Papa na passadeira vermelha e fazer-lhe uma pergunta. Nos Estados Unidos, conseguir a desclassificação dos documentos secretos que comprovaram a cumplicidade da administração do Presidente Ford (e de Henry Kissinger) na invasão da ex-colônia portuguesa de Timor-Leste pela Indonésia. Em Angola, a descoberta de que, nas eleições de 1992, deliberada e irregularmente, não foram contados todos os votos.

Mas Angola também tem um traço, uma ligação ao Brasil, por via não apenas do semba, que deu origem ao samba, mas da corrupção. A Lava-Jato tem rasto nesse país africano, onde a Odebrecht foi acusada de suborno de altos funcionários, para facilitar a concessão de obras públicas. Durante o inquérito Lava-Jato, Hilberto Mascarenhas Alves da Silva Filho, alto funcionário da construtora brasileira, confessou um pagamento de 20 milhões de dólares a um ministro angolano.

 

CFM: Que conselho daria a quem está a iniciar nessa carreira? 

LCR: Prepare-se, prepare-se melhor, estude, estude mais, seja humilde, ouça as pessoas, chegue ao local da reportagem disposto a descobrir a verdade presente e a menos óbvia, seja imparcial, seja ainda mais imparcial, pense pela sua cabeça, prepare-se para muita encrenca, aceite que não será milionário, não tenha medo.

CFM: O que mudou na carreira jornalística de correspondentes ao longo de todo esse tempo?

LCR: No início, o correspondente relatava as notícias. Com o aparecimento dos canais internacionais de notícias, BBC World, CNN, etc. o correspondente passou a ter de explicar as notícias e procurar motivos de reportagem de interesse para sua audiência que não fossem abordados por esses canais. Com todos os sites que noticiam tudo instantaneamente, o correspondente é o olho crítico que distingue o trigo do joio, que aponta a informação factualmente correta e as fake news, que ajuda a interpretar e a traduzir a realidade de um local para uma audiência distante.

CFM: Porque acha que as pessoas deveriam ler seu livro?

LCR: Porque é um bom livro. Retrata 38 anos de jornalismo entre a Casa Branca e as montanhas asiáticas de Timor-Leste, mostrando não apenas a disparidade geográfica das minhas viagens mas a disparidade do poder entre dois polos do Mundo: a presidência dos EUA e um dos mais jovens e pobres países do Mundo.  Tem histórias dos meus encontros com a CIA, muitas aventuras, bastidores do jornalismo, histórias com gente muito famosa, reflexões importantes sobre o jornalismo. “Uma Vida em Directo” é um livro que aborda assuntos sérios de forma acessível e, por vezes, divertida.

Na investidura de Trump, Janeiro de 2017

CFM: Relate um fato engraçado que telha lhe marcado a carreira.

LCR: Encontrava-me em Beirute, durante a guerra do Líbano de 2006, quando um rapaz de talvez 10 ou 12 anos se aproximou de mim, apontou o meu nome no cartão de Imprensa e onde estava Luís, disse “Luís Figo”. Onde estava Costa, disse, “Rui Costa”. Fiquei admirado com o alcance das nossas estrelas de futebol, de um país pequeno como Portugal, e que foram a primeira coisa que ocorreu aquele menino, no meio da sua cidade em guerra. Também não esqueço o dia em que, no aeroporto de Singapura, vi um placard outdoor com Cristiano Ronaldo a anunciar as televisões Samsung. Não há maior símbolo da globalização: jogador português da liga inglesa, promove um produto sul-coreano em Singapura.

Há outros episódios mais graves e menos engraçados, como no dia em que, também durante a guerra do Líbano, num bairro de Beirute, uma bomba israelense de implosão foi deitada num prédio bem perto de nós. Iniciamos a fuga e o nosso motorista começou dirigindo muito rápido: Não, não gritei para ele. Os israelenses tomam veículos em fuga rápida como terroristas, dirija mais devagar. Após isso, procurou abrigo sob um viaduto. Uma vez mais gritei: Não faça isso, estão bombardeando os viadutos. Aí ele respondeu: Nossa, não posso fugir rápido, não posso me abrigar debaixo do viaduto, o que você quer que eu faça. Respondi: Que vá devagar para onde não nos matem, tá?

CFM: Onde gostou mais de trabalhar? Por quê?

LCR: Nos Estados Unidos. Como não gostar de trabalhar num país que é um continente, onde se cruzam religiões e etnias de todo o Mundo, onde se encontra tudo o que existe de melhor e de pior no ser humano, do mais sublime ao mais nojento?

CFM: Podes sugerir alguma outra questão que considere pertinente também

LCR: “Uma Vida em Directo” pode ser adquirido no Brasil em formato papel ou e-book no site da Editora Leya:
https://www.leyaonline.com/pt/livros/biografias-memorias/uma-vida-em-directo/