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Quando o esporte se transforma em ferramenta de inclusão para famílias atípicas

Diagnosticada com autismo, atleta e mãe de duas crianças com TEA, Gelciane Pereira conta como manter o respeito aos limites individuais, mesmo durante períodos de intensa estimulação sensorial, como a Copa do Mundo_

 

 

Momentos de celebração coletiva (como a Copa do Mundo de futebol) costumam ser marcados por festas, aglomerações, fogos de artifício e ruídos intensos. Embora essas manifestações façam parte da experiência de muitas pessoas, para indivíduos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), podem representar desafios relacionados à sobrecarga sensorial e emocional.

 

 

Nesse contexto, a história de Gelciane Pereira dos Santos, de 39 anos, ganha destaque. Diagnosticada com autismo nível 1, ela é atleta amadora, mãe de João Pedro, de 10 anos, e de Arthur, de 7, ambos com autismo nível 2. A família encontrou no esporte uma importante ferramenta de desenvolvimento, regulação emocional e fortalecimento dos vínculos familiares.

 

 

Praticante de natação, karatê, vôlei e futebol, Gelciane compartilha com os filhos a rotina esportiva e os benefícios que ela proporciona. João Pedro atua como goleiro e zagueiro, enquanto Arthur vem desenvolvendo gradualmente habilidades motoras e aprimorando a sua interação por meio das atividades físicas.

 

 

Segundo Elisama Coelho de Oliveira Moniza, terapeuta ocupacional da Hapvida, a prática esportiva contribui diretamente para o desenvolvimento de competências fundamentais para pessoas neurodivergentes. “O trabalho terapêutico busca preparar o indivíduo para sua participação em diferentes ambientes sociais. Nesse processo, o esporte pode favorecer a regulação sensorial e emocional, auxiliar no controle da ansiedade, ampliar a tolerância à frustração e estimular habilidades de interação e autonomia”, explica.

 

 

Os resultados são percebidos no dia a dia da família. João Pedro, que anteriormente apresentava maior dificuldade com demonstrações de afeto e contato físico, passou a demonstrar mais conforto nessas situações. Arthur também avançou na socialização e na convivência familiar, ampliando gradualmente sua interação com pessoas próximas.

 

 

Desafios em períodos de maior estímulo sensorial

 

 

Apesar dos avanços, períodos marcados por comemorações coletivas continuam exigindo adaptações. Gelciane e João Pedro apresentam sensibilidade a sons intensos, como fogos de artifício, buzinas e gritos, estímulos que podem provocar desconforto, irritabilidade e desregulação emocional.

 

 

Para minimizar esses impactos, a família adota estratégias previamente definidas, como permanecer em ambientes mais tranquilos, preservar a rotina e utilizar recursos de proteção auditiva quando necessário.

 

 

“O mais importante é compreender que cada pessoa autista apresenta necessidades específicas. Nem sempre participar de uma comemoração da mesma forma que os demais é possível ou desejável. Respeitar os limites individuais é uma das principais formas de inclusão”, destaca Elisama.

 

 

A importância dos ambientes de acolhimento

 

 

Outro aspecto fundamental para o desenvolvimento da família é a existência de espaços seguros e acolhedores durante o tratamento. Na unidade onde realizam acompanhamento multiprofissional, Gelciane e os filhos costumam utilizar um local mais reservado quando precisam reduzir estímulos e recuperar o equilíbrio emocional.

 

 

A experiência reforça a importância de ambientes preparados para reconhecer e respeitar diferentes perfis sensoriais, oferecendo condições para que cada paciente encontre estratégias adequadas de autorregulação.

 

 

Para Gelciane, o suporte recebido ao longo do acompanhamento tem sido decisivo para enfrentar os desafios da maternidade atípica e do próprio diagnóstico.

 

 

“O acolhimento faz toda a diferença. Saber que existem profissionais que entendem nossas dificuldades e respeitam nossos limites nos dá mais segurança para enfrentar o dia a dia”, afirma.

 

 

Orientações para famílias durante grandes eventos

 

 

De acordo com especialistas da Hapvida, períodos marcados por alterações na rotina e aumento dos estímulos ambientais exigem atenção especial de famílias de pessoas autistas. Algumas medidas podem contribuir para reduzir o impacto dessas situações:

 

 

• Manter a rotina o mais previsível possível;

• Antecipar mudanças de horários e ambientes;

• Disponibilizar espaços tranquilos para pausas sensoriais;

• Utilizar recursos de proteção auditiva quando indicados;

• Respeitar os limites e sinais de desconforto de cada pessoa.

 

 

Com planejamento, acolhimento e estratégias adequadas, eventos de grande mobilização popular podem ser vivenciados de forma mais confortável e segura, preservando o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas autistas e de suas famílias.

 

 

Foto: Divulgação

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