
Gestão Mabel multa empresas por falta de medicamentos, mas atraso nos repasses expõe contradição administrativa e agrava crise de abastecimento na rede municipal
A gestão do prefeito Sandro Mabel enfrenta mais um capítulo delicado na área da Saúde em Goiânia. Levantamento com base em dados oficiais da própria Prefeitura aponta que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) acumula uma dívida de R$ 8,8 milhões com fornecedores de medicamentos e insumos, valor que envolve 128 empresas contratadas entre 2021 e 2025. O dado escancara um problema estrutural: a administração cobra entregas e aplica multas, mas não consegue honrar, de forma tempestiva, os compromissos financeiros assumidos.
O cenário se torna ainda mais contraditório quando se observa que seis das empresas que aguardam pagamento foram recentemente multadas pela Prefeitura, sob a justificativa de atraso ou não entrega de produtos essenciais. Juntas, essas fornecedoras têm R$ 1,074 milhão a receber, enquanto acumulam R$ 646,9 mil em penalidades aplicadas pela própria gestão municipal. Na prática, se houvesse compensação direta entre dívida e multa, restariam pouco mais de R$ 427 mil a serem pagos — uma redução artificial do débito que não resolve o problema central: a falta de planejamento financeiro e de diálogo com os fornecedores.
Nos bastidores, o que se ouve é que parte das empresas suspendeu entregas justamente pela ausência de pagamento. Ou seja, a gestão municipal penaliza fornecedores por descumprimento contratual sem reconhecer que o próprio atraso da Prefeitura contribuiu para o desabastecimento da rede pública. Entre as empresas multadas estão distribuidoras tradicionais do setor hospitalar e farmacêutico, responsáveis pelo fornecimento de itens básicos à assistência em saúde.
Enquanto isso, os efeitos práticos recaem sobre a população. Em coletiva recente, o secretário municipal de Saúde, Luiz Pellizzer, admitiu que 1,8 milhão de medicamentos e insumos deixaram de chegar às unidades de saúde da capital. A lista inclui remédios de uso contínuo e essencial, como clorpromazina, biperideno, heparina, omeprazol e ibuprofeno, além de materiais básicos como luvas, seringas e soro. A escassez atinge desde pacientes com transtornos mentais até pessoas em tratamento de doenças crônicas, evidenciando o impacto direto da desorganização administrativa.
Os contratos questionados foram firmados por meio de pregões eletrônicos homologados entre 2020 e 2025. Até a última semana, a Prefeitura já havia divulgado multas que ultrapassam R$ 1,2 milhão, aplicadas a pelo menos 27 empresas. O número cresce a cada edição do Diário Oficial, dando a impressão de rigor administrativo, mas sem enfrentar a raiz do problema: a incapacidade de manter o fluxo regular de pagamentos.
Em nota oficial, a Secretaria Municipal de Saúde afirma que herdou, em 2025, um passivo de R$ 504 milhões e que parte expressiva foi quitada no ano passado. A gestão também sustenta que investiu cerca de R$ 800 milhões na saúde municipal e que os contratos atuais estão sendo pagos em dia. O discurso, no entanto, não se sustenta diante dos dados que mostram dívidas ativas e fornecedores sem receber, justamente na área mais sensível da administração pública.







