Bets transformam aposta em pesadelo e levam moradores das periferias a buscar ajuda

Relatos de endividamento, perda de patrimônio, rompimento familiar e sofrimento psicológico revelam o lado mais perverso da expansão das apostas online no Brasil
As apostas esportivas e os jogos online deixaram de ser apenas uma diversão para uma parcela dos brasileiros e passaram a produzir histórias de endividamento, perda de patrimônio, rompimento familiar e sofrimento psicológico. Reportagem da Agência Brasil mostra como moradores de regiões periféricas estão chegando ao sistema público de saúde em busca de ajuda para interromper um ciclo que, em muitos casos, começou com a promessa de dinheiro fácil.
Um dos relatos é o de um homem de 42 anos, identificado como Kaio, que chegou a acumular mais de R$ 200 mil em dívidas provocadas pelas apostas. Vendeu o carro, móveis e a própria casa para tentar cobrir os prejuízos. Também perdeu o emprego e o casamento. Hoje, busca tratamento em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) e afirma que nunca havia enfrentado uma dependência tão devastadora.
O problema ganha uma dimensão ainda mais preocupante nas comunidades de menor renda. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que pessoas das classes C e D estão entre as mais vulneráveis às plataformas, especialmente quando recebem publicidade que apresenta a aposta como uma possível forma de complementar a renda. A lógica é perversa: quem tem menos dinheiro para perder pode ser justamente quem sofre as consequências mais graves quando perde.
A facilidade de acesso agrava o quadro. O celular transformou o jogo em uma espécie de “cassino na palma da mão”, disponível durante 24 horas, dentro de casa e sem a necessidade de deslocamento. Segundo profissionais de saúde, o transtorno pode provocar perda de controle, isolamento, inversão do sono, ansiedade, depressão e até ideação suicida.
Outro aspecto preocupante é o chamado endividamento em cascata. O apostador perde dinheiro, contrai uma dívida para tentar recuperar o prejuízo e volta a apostar justamente para pagar a dívida anterior. Foi esse mecanismo que levou um dos entrevistados a recorrer até a dinheiro emprestado para quitar débitos com agiotas. Em vez de recuperar o que perdeu, aprofundou o buraco financeiro.
A reportagem também mostra como a publicidade e a própria dinâmica das plataformas podem alimentar uma falsa percepção de controle. Há relatos de pessoas que começaram a apostar depois de ouvir de amigos que seria possível obter uma renda extra. Ganhos iniciais, segundo especialistas, podem funcionar como estímulo para que o jogador continue apostando, criando a sensação de que basta insistir para recuperar o dinheiro perdido.
O setor de apostas afirma que o jogo problemático é uma questão séria e defende ações coordenadas entre governo, reguladores, empresas e sociedade. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável também afirma que as apostas não devem ser apresentadas como fonte de renda ou solução financeira e destaca as regras existentes para publicidade e proteção de menores.
O desafio, porém, é maior do que simplesmente dizer ao apostador para parar. A avaliação dos profissionais ouvidos pela Agência Brasil é de que o problema precisa ser tratado também como questão de saúde pública. Os Caps já recebem pessoas que chegam em situação de desespero, e o tratamento envolve acompanhamento profissional, grupos terapêuticos e participação da família.
A história desses apostadores revela o contraste mais brutal das bets: para alguns, entretenimento; para outros, a porta de entrada para uma espiral de dívidas e destruição pessoal. Quando a aposta passa a ser vendida como oportunidade de mudar de vida, especialmente para quem vive com renda apertada, o risco deixa de ser apenas financeiro. Torna-se social, familiar e psicológico.
O Brasil pode até ter criado regras para o mercado, mas a expansão das apostas exige uma pergunta incômoda: a regulamentação está conseguindo proteger quem mais precisa ser protegido? O crescimento da procura por tratamento indica que ainda há um longo caminho pela frente.






