QUEBRA DE CONTRATO: Irão as sombras esconder as cores do meu coração?

18 de novembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Em julho de 1989, o então governador da província de La Rioja, Carlos Saul Menem assumia a presidência da Argentina, o que deixava a comunidade judaica bastante apreensiva por causa de suas origens árabes. Menem nascera no seio de uma família de imigrantes sírios e muçulmanos. Saúl Menem era seu pai e Mohibe Akil sua mãe. Também, não é segredo pra ninguém, que ele nutre uma grande simpatia pelos atos contraditórios de Juan Domingo Perón em relação aos judeus.

Aparentemente, seu primeiro mandato é tranquilo. Suas ações dão claras demonstrações de que não ele não irá mesmo perseguir os judeus, nomeando inclusive diversos membros desta comunidade para ocupar altos cargos no funcionalismo público. E durante os dois primeiros anos, Menem visita o Estado de Israel várias vezes, oferecendo-se como mediador no processo de paz entre árabes e israelenses, até mesmo, quando um cemitério judaico é vandalizado em Buenos Aires, ocasião em que ele expressa ultraje, determinando a prisão dos culpados, o que acontece no prazo de uma semana.

Isso, é claro, diminui a resistência da comunidade judaica, mas não toda. Entretanto, somente quando ele dá ordens para abrir os arquivos argentines, para apurar a relação do país com os refugiados nazistas, é que ele ganha, definitivamente, a confiança de grande parte da comunidade judaica.

Tanto a visita a Israel, como essa conduta, aparentemente amistosa, contraria os governos da Síria e do Irã, provocando um impasse diplomático, quando o presidente sírio, visivelmente contrariado, disse que ele não seria bem recebido na Síria.

Como o diabo que “dá com uma mão e retira com as duas”, todos os cidadãos argentinos são pegos de surpresa quando, a mascara finalmente cai e ele concede indulto aos líderes da ditadura, mesmo depois de eles serem condenados à prisão perpétua por violação dos direitos humanos.

Se no trabalho, Jacob acumula glórias e honrarias, em casa já não se pode dizer o mesmo. Todos se queixam dele. Elias, o filho, passa a ser o maior oponente. Os estilos de vida diametralmente opostos, provocam fagulhas na frágil relação entre ambos, culminando em discussões com acusações de ambos os lados. Por isso, ele evita ao máximo que pode ir visitar Adria, só para não ter que se aborrecer com Elias. Seus encontros com o neto passam a ser, na maioria das vezes, em sua casa mesmo, quando Judith, a nora, leva Adria, ou quando Mirta vai buscá-lo.

Assim como Jacob, Elias mora no Once, o mais movimentado distrito comercial da cidade. Seu nome é uma homenagem à estação ferroviária 11 — Once de Septiembre, localizada na Plaza Miserere, em geral chamada de Plaza Once.

No Once judaico vive a Congregação de judeus sefaradi, originários da Península Ibérica, e que frequentam uma bonita sinagoga, em estilo mourisco. No Once também se encontra a sede da AMIA, onde trabalham Elias, Judith e a maioria dos amigos de Jacob.

Com o afastamento de suas operações no MOSSAD, Jacob fica apenas como consultor, o que lhe devolve a possibilidade de resgatar uma relação familiar com o neto, a quem passa a dedicar-se, doando todo o carinho que foi impedido de ofertar aos filhos mortos pelos nazistas, e ao próprio Elias que, por sua vez, faz de tudo para dificultar esse contato. Para ele, Jacob é uma péssima influência para Adria. Mirta, é claro, não concorda esta atitude, sendo obrigada, muitas vezes, a intervir junto ao filho para que Adria possa conviver um pouco mais com Jacob.

— Procure compreender as razões e os conflitos do seu pai para agir desta maneira, Elias. Por tudo o que passou na vida e…

— Eu tento mamãe, sei que ele sofreu muito, que perdeu sua primeira família, seus pais e seu irmão, mas nossa divergência é basicamente pela sua conduta com nossa religião e tradição. — responde Elias, cortando a intervenção de Mirta.

— Não pese tanto a sua mão sobre ele, meu filho. Seu pai sofre muito com isso, e depois, você não sabe tudo sobre ele. Não o condene por ter abandonado a religião. Ele nunca conseguiu se livrar dos fantasmas do passado.

É claro que Elias ama e orgulha-se pelo pai ter sobrevivido ao Holocausto e por ter liderado uma revolta, conseguindo escapar de Treblinka. Para ele e para todos os judeus, Jacob é um herói, mas o fato de ter se afastado da religião é algo incompreensível para um religioso como ele. Para piorar, desde que decidiu tornar-se um agente do MOSSAD, afastando-se de Mirta, isso passou a ser motivo para muitas discussões entre ambos.

— Tenha mais um pouco de paciência, Elias. Seu pai merece que você se empenhe em praticar o que aprende nos seus estudos. Falta pouco tempo para ele se aposentar definitivamente, tanto da Embaixada quanto do MOSSAD.

— Não acredite nas promessas dele, mamãe.

— É verdade, meu filho, ele até já marcou a data, vai ser daqui a um ano, em julho de 1993.

Elias apenas olha para a mãe, tentando compreender o que a faz ser tão tolerante com o homem que a abandonou nos seus melhores anos. Em seu íntimo, contudo, ele não sabe se fica feliz com a notícia da aposentadoria, ou preocupado por Jacob ter mais tempo para ficar com Adria, influenciando-o negativamente.

— Não crie tantas expectativas, mamãe. Você não o terá integralmente, ficará apenas com o que sobrou dele.

Mirta acusa o golpe. “De fato, se uma pessoa comum apresenta tantos problemas psicológicos originados no passado, como será a cabeça de Jacob com tantos traumas, tantas perdas, sem nunca ter tido tempo de desfrutar de um descanso?” — pensa.

Jacob está muito cansado e sente-se velho para o ritmo de trabalho que lhe é exigido, mas aceitar o convite para assessorar novos agentes recrutados, transmitindo a larga experiência de 30 anos de atuação é um acerto tanto para ele quanto para a Instituição.

Tudo transcorre bem, exatamente como ele havia programado. Adria está sempre por perto e Elias, apesar de não gostar muito, já não faz tanta pressão, recebendo-o algumas vezes em sua casa sem que briguem. Mirta também está feliz com o afeto e atenção que ele lhe dedica e, ao que tudo indica, com a sua demonstração de saber enfrentar bem os traumas do passado.

Com mais tempo para viver, Jacob descobre alguns lugares aprazíveis nas redondezas onde mora com o filho, um deles é o “Bar do Manduca”, que fica a poucos metros de sua residência. Um reduto localizado na esquina das Ruas Tucumán com a Rua Uriburu, uma quadra antes da Rua Pasteur, onde fica a sede da AMIA, no número 633. Lugar que logo torna-se o seu preferido e onde passa a frequentá-lo quase todos os dias.

Com excelente capacidade de adaptar-se às mudanças, Jacob passa a levantar-se bem cedo para comprar leite, pão e jornal na banca do amigo Pepe, ali perto, indo em seguida, encontrar-se com os novos amigos, a maioria funcionários da Amia, para tomar o café da manhã, onde discutem política e futebol.

— Meu amigo, depois que o Passarella assumiu o River, nós já levamos a temporada 1989/90 e vamos levar a temporada desse ano. Pode anotar isso aí. — diz Buby.

— Vocês estão achando que vai ser mole? Uma ova! O Newell’s Old Boys está formando uma grande equipe. — responde Gabriel.

— Vocês também deram muita sorte com o Ramón Medina. O cara tava inspirado ou abençoado. De onde quer que ele chutasse a bola, a maldita entrava no gol adversário. — diz Kuky para o amigo Buby.

— Ah, não diz isso! O nosso meio-campo formado por Gustavo Zapata, Leonardo Astrada, Héctor Enrique, Juan Borreli e o uruguaio Rubén da Silva é o melhor da temporada. — responde Buby.

— Vocês discutem quem ganhou o Torneio Apertura no ano tal, o Torneio Clausura no ano tal, mas ninguém discute que o Boca é o que tem mais títulos nacionais e internacionais. — sentencia Jacob, recebendo uma sonora vaia.

O ambiente é bem descontraído e o clima é sempre amistoso. Depois, tem o próprio Manduca, um tremendo “figuraça”. Magro, alto, cabelos compridos, presos num “rabo de cavalo”, e costeletas à Suíça, longas e fartas que vão até a metade da face.

Todos sabem do passado de Jacob em Treblinka, e que ele trabalha na Embaixada de Israel, mas nem de longe desconfiam sobre o seu envolvimento com o MOSSAD, apenas o acham bastante reservado e desconfiado. Como ele nunca senta-se de costas para a porta de saída, fica sempre numa posição privilegiada para observar todos que entram e saem do bar, e assim, sem que eles esperem, surpreende a todos com as intervenções sempre pertinentes, não importando se o assunto é sobre política, futebol, ou antissemitismo. E é isso que faz dele uma persogem folclórico naquelas redondezas, permitindo que todos eles criem suas próprias histórias sobre sua vida. Principalmente, porque ele estava sempre de posse de uma fita cassete, que Mirta havia lhe presenteado alguns anos antes, com a música: “I Don’t Want to Talk About It”, e não era raro ao ouvi-la, deixar escorrer algumas lágrimas, como se concordasse com a letra que o remetia ao passado doloroso.