Quebra de Contrato: Era para ser uma simples investigação de rotina, mas…

24 de novembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Em agosto de 1991, um contato de Jacob recebe, em Milão, um telefonema anônimo, indicando uma lata de lixo no Aeroporto Internacional di Malpensa, como o suposto lugar onde se encontra uma carta com graves denúncias sobre um atentado contra a Embaixada de Israel na Argentina.

O contato italiano liga para Jacob, que decide viajar sem dividir a informação com mais ninguém, alegando cansaço e pedindo uma licença de quinze dias para fazer exames médicos. Mirta o conhece, sabe que ele está mentindo. A confirmação chega no dia seguinte, quando ele embarca, usando um passaporte falso que, inadvertidamente, deixara sobre a mesa de cabeceira junto com a passagem.

— Vai começar tudo novamente, Jacob? — pergunta Mirta.

— Eu preciso verificar uma denúncia.

— O telefone não tocou como das outras vezes. Isso é uma iniciativa sua?

— A fonte me pediu que eu não divulgasse nada até ver o conteúdo de uma carta.

— Você não tem mais idade pra isso, Jacob. Entregue a missão para alguém mais jovem, por favor.

— Não se preocupe, Mirta, eu só vou checar a gravidade do problema, depois comunico ao escritório e me afasto.

— Posso confiar em você?

— Pode.

Jacob a beija carinhosamente e parte para Milão, onde, quinze horas depois, é recebido pelo contato italiano ainda no saguão do aeroporto.

— Trouxe a carta? — pergunta Jacob.

— Está comigo, mas você não quer descansar primeiro

— Descansar? Você me chamou para falar de um atentado contra a Embaixada de Israel em meu país e quer que eu descanse?

— Desculpe, eu só estava pensando em…

— Se o que tem em mãos for verdadeiro, cada segundo perdido representa uma vida humana que pode ser salva. — diz Jacob rispidamente e interrompendo-o.

— Eu reservei um hotel para você.

— Fica longe daqui?

— Não, fica em Gerenzano, distante dez minutos.

— Tudo bem, vamos para lá então. No caminho eu leio a carta.

A carta está redigida em três idiomas: Italiano, espanhol e inglês. Jacob analisa a carta, enquanto a lê em voz alta.

“Uma iraniana e um brasileiro, ambos envolvidos com narcotraficantes e agentes do Hezbollah, estão tramando um atentado terrorista contra a Embaixada de Israel em Buenos Aires, Argentina. O Irã e a Síria estão envolvidos e pressionando o presidente argentino Carlos Saul Menem, pelo descumprimento de um acordo envolvendo enriquecimento de urânio. Ela mora em Ciudad Del Este, e ele, em Foz do Iguaçu. Essas duas cidades e mais Porto Iguazu, tornaram-se o destino de imigrantes de origem árabe. Atualmente, essa comunidade presente na região da Tríplice Fronteira é de aproximadamente 18.000 indivíduos, majoritariamente libaneses, e uma pequena porcentagem de sírios, egípcios, palestinos e jordanianos…”

— O papiloscopista achou alguma coisa? — pergunta Jacob, interrompendo a leitura.

— Nada

“… Uma parcela desses imigrantes libaneses é originária do Vale do Bekaa, onde atua o grupo terrorista Hezbollah. Periodicamente, são enviadas variadas somas em dinheiro para o Líbano, Damasco e Teerã, com o intuito de financiar o Terrorismo Internacional e o refúgio dos grupos terroristas Hezbollah, Jihad Islâmica, Gamat al-Islamiya e Hamas.”

— Isso tudo é muito vago. — diz Jacob.

— Mas faz algum sentido pra você?

— Nós já investigamos isso, desde o final da década de 1960, quando essas três cidades se tornaram o destino de um grande contingente de imigrantes de origem árabe que, dentre outros motivos, deixavam seus países para fugir dos diversos conflitos que tiveram lugar no Oriente Médio após o fim da Segunda Guerra Mundial.

— Mas você não acha que cabe uma investigação mais apurada, já que a carta fala em atentado à Embaixada de Israel?

— Talvez, isso mereça uma atenção especial, mas não acredito que algo aconteça. A América do Sul, apesar de abrigar nazistas, não registra nenhum episódio de persecução contra os judeus. — responde Jacob.

O carro estaciona em frente ao Hotel Concorde.

— Você já tinha ouvido falar neste termo: Tríplice Fronteira? — pergunta o contato italiano.

— A inter-relação entre as cidades que o autor da carta chama de Tríplice Fronteira e as imputações que a representam como uma área relacionada ao terrorismo internacional não encontra nenhum respaldo dentro do que temos apurado. — responde Jacob.

— Bom, o especialista aqui é você. Se a carta não é uma ameaça concreta, tanto melhor.

— Eu também não disse isso. Vou dar alguns telefonemas para me certificar melhor. Volte amanhã na parte da tarde.

— Você pretende ficar quanto tempo aqui em Milão?

— Não sei, mas ainda tenho doze dias.

— Não eram catorze?

— Seriam, mas pelo teor desta carta, decidi descansar dois dias.

Os dois se despedem e Jacob entra em contato com o escritório em Tel Aviv comunicando sobre o conteúdo da carta.

— Há dois anos, quando os técnicos fizeram o levantamento topográfico, e analisaram a relação geopolítica entre Brasil, Paraguai e Argentina, não descobriram nada demais. Vocês têm esses relatórios inclusive em São Paulo, onde a colônia de imigrantes árabes é muito maior e eles nunca criaram problemas, assim como no Rio de Janeiro, onde convivem pacificamente com a colônia judaica e dividem até mesmo uma mesma zona comercial. — diz Jacob.

— O que você sugere, então? — diz a voz do outro lado da linha.

— Alertamos todas as embaixadas para que reforcem a segurança e bloqueiem as entradas, enquanto ganhamos tempo para investigar. — responde Jacob.

— Mandaremos um comunicado oficial às embaixadas. Sugiro que você retorne à Buenos Aires e assuma a segurança da nossa Embaixada lá.

— Farei isso amanhã mesmo, senhor.