Quebra de Contrato: Dois “Pássaros” escapam da “Águia”

1 de dezembro de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Jacob desliga e faz contato novamente com o seu informante, explicando a situação. Com a experiência de quem já atuava a mais de 30 anos contra o terrorismo, tendo inclusive participado da “Operação Cólera de Deus”, cujo objetivo foi eliminar todos os terroristas palestinos do grupo Setembro Negro, envolvidos no massacre de atletas israelenses, nos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique; e da “Operação Entebbe”, cujo objetivo foi salvar a vida de todos os passageiros do Airbus A300, da Air France, mantidos como reféns em Uganda, pela organização terrorista alemã Baader-Meinhof, em 1976, não foi difícil para ele encontrar as pistas que levavam ao redator da carta anônima, o brasileiro, Wendell Norberto da Silva.

Conduzido ao quarto de um hotel no centro de Milão, Wendell revela a Jacob que Ameneh Berro é uma prostituta, e que, eles mantêm relações há dois anos, mas que ao descobrir que ela está envolvida com grupos terroristas, decidiu afastar-se e denunciá-la. No entanto, tinha medo de ser desacreditado e acabar envolvido com a polícia.

— Vamos abrir o jogo Wendell. Você não é nenhum santo e eu já estou sabendo que você faz negócios com iranianos, passando gente pela fronteira entre o Brasil, Argentina e Paraguai.

O brasileiro empalidece com a descoberta de Jacob.

— Eu juro pro senhor. Só estou tentando evitar que um atentado ocorra, por isso enviei a carta para o consulado.

— O que mais você sabe sobre esta mulher?

— Tudo o que sei, eu já contei. É verdade, acredite!

— Você tem absoluta certeza disso?

— Tenho. Ela está tramando um atentado contra a Embaixada Israelense em Buenos Aires nos próximos meses.

— Mais alguma coisa que possa nos ajudar?

— Não. Sinto muito.

— Sabe onde podemos encontrá-la?

— Acho que ela embarcou para a Suíça.

— Perfeito.

— Terminou? Posso ir embora agora?

— Não. Agora você me acompanha.

— E para aonde vamos?

— Para o aeroporto. Embarcamos imediatamente para a Argentina.

— E posso saber por qual motivo?

— Claro que sim! Você ficara detido até que tudo seja esclarecido.

— Mas onde está o mandado de prisão?

— Aqui.
Jacob aponta uma pistola Bul M5 contra o peito de Wendell.

— Tome. Coloque-a nos punhos.

Derrotado, Wendell coloca as algemas e é conduzido para o aeroporto, de onde embarcam num voo fretado para Buenos Aires. Uma semana depois, com a ajuda do MOSSAD, dois agentes da Side — o serviço de inteligência argentino —, Ameneh é detida de forma irregular na Suíça e, antes mesmo que a Justiça argentina emita o pedido de sua detenção, ela é embarcada num voo da Air France com destino ao Uruguai. Contudo, na conexão com a Argentina ela é retirada do voo e conduzida para uma delegacia, onde é interrogada por Jacob. Sua prisão é comemorada como um grande avanço nas investigações sobre o caso.

Com os dedos nervosos, que levam à boca um cigarro atrás do outro, as olheiras fundas, os cabelos em desalinho e falando frases confusas que misturam meia dúzia de idiomas, Jacob avalia a situação difícil em que ela se encontra.

A essa altura, o MOSSAD já sabe de tudo e dá todo o apoio para que Jacob prossiga suas investigações. Na Embaixada de Israel, o alerta máximo é para que todas as instituições judaicas passem a ser rigorosamente vigiadas por agentes de segurança e policiais argentinos.

Ameneh passa a ser a principal suspeita de participar de um atentado contra a Embaixada de Israel, em Buenos Aires.

— A senhora é terrorista ou tem alguma ligação com o governo iraniano?

— Não sou terrorista e nunca tive qualquer ligação com o atual governo do Irã.

— Mas então a senhora já teve alguma relação com o governo?

— Eu já trabalhei para um ex-ministro do Petróleo do xá Reza Pahlevi, antes que ele fosse deposto pela revolução islâmica em 1979.

— A senhora é prostituta ou se relacionava com o senhor Wendell?

— Não sou prostituta e nunca namorei ou me relacionei com este homem.

— Então por que ele a acusa?

— Não sei, talvez porque ele mantenha conexões com grupos terroristas ou talvez, seja cúmplice dos serviços de inteligência da Argentina, talvez, com o aval do Brasil, ou talvez isso seja uma operação de despiste para desviar o rumo das investigações que vocês poderiam fazer sobre ele.

— Há quanto tempo a senhora reside ilegalmente neste país?

— Há dois anos.

— Nesse tempo, o governo iraniano lhe ajudou financeiramente?

— Não. Minha família me mandava dinheiro.

— Sua família é rica?

— Não, meu pai é funcionário público.

— Então como é que a senhora explica viajar pela Europa com o senhor Wendell, um sujeito de reputação duvidosa e juntos, gastarem quase US$ 40 mil na esperança de conseguir um visto?

— Tudo o que sei é que fui trazida de forma ilegal e estou sem dinheiro. O resto se o senhor quiser ouvir, eu só falo em juízo.

Jacob não a força mais, sabe que está diante de uma mulher experiente e legalmente não pode fazer qualquer afirmação sobre ela estar envolvida com grupos terroristas.

_ A senhora está liberada, Sra. Ameneh.

O juiz que acompanha o caso, a qualquer momento pode deixá-la em liberdade se não houver prova suficiente sobre o seu envolvimento com células terroristas. A denúncia de Wendell também corre o risco de perder força, já que ele prestou depoimentos contraditórios para a polícia argentina. Pior, diante do representante da justiça brasileira, disse que inventou toda a história para ganhar dinheiro.

Dias depois, quando tem de ratificar o depoimento perante o juiz, Wendell alega ter mentido “por medo”, e acaba sendo processado por falso testemunho, mas logo depois tem a prisão relaxada e volta para o Brasil, desaparecendo. Não demora muito para Ameneh ganhar a liberdade e também desaparecer no mundo. Toda investigação dura cinco meses, mas o processo acaba arquivado por falta de provas.

Jacob toma algumas providências, orientando o pessoal da Embaixada e aproveita os dias de folga para descansar o final de semana com Mirta. Ele deseja que Adria os acompanhe até a casa de veraneio, no Delta do Tigre. Mas Elias não está disposto a liberar o filho.

— Deixe ele ir conosco, Elias.

— Ele vai comigo à sinagoga, mamãe.

— Eu prometo a você que rezarei com ele no shabat e faremos tudo, como se ele estivesse aí com vocês.

Elias não gosta, mas acaba cedendo. Mirta sorri para Jacob, que todo animado corre para o quarto para arrumar as malas.

— Passaremos amanhã de manhã. Um beijo, querido.

No dia seguinte, após o desjejum, Adria, ansioso, fica na sacada do apartamento regulando se os avós aparecem.

— Eles vêm de carro ou a pé, mamãe?

— Acho que vocês vão de carro. — responde Judith.

— Vocês vão de trem. — corrige Elias.

— Oba! A viagem de trem é muito melhor. — exalta Adria.

— De trem, Elias? Não é perigoso?

— Eles não vão de trem comum.

— É verdade mamãe, vamos pegar o Trem de la Costa, na estação Maipu.

— E como vão se virar por lá? — pergunta Judith.

— Papai deixa o carro dele lá. — responde Elias.

— Mas lá só se anda de barco! — afirma Judith.

— Mas às vezes a vovó fica enjoada, por isso que o vovô deixa o carro dele lá.

— Sua avó me prometeu que vocês irão cumprir o shabat, Adria.

— Pode deixar, papai… Ei! Olha lá eles. Vovô! — grita Adria da sacada.

Jacob olha para cima e acena.

— Já vamos descer! — grita o garoto novamente avisando.

— Pare de gritar, Adria. — reclama Judith.

Em poucos minutos, eles se encontram na calçada em frente ao prédio. Judith e Mirta conversam sob os olhares de Adria e Elias. Jacob faz sinal para um táxi que para em seguida.

Jacob se mantém perto do táxi, enquanto todos se despedem. Elias o encara com altivez, mas ele lhe devolve um sorriso e acena com a cabeça. Todos entram no táxi, que parte em direção à estação de trem na Avenida Maipu.

— Nós vamos parar em San Izidro, “Harold”? — pergunta Adria.

— Dessa vez não, “Calvin”, mas quando chegarmos no Delta, eu deixo você dirigir sentado no meu colo.

— Oba!!!

— Já vai começar a quebrar as regras, Jacob? — pergunta Mirta.

— Não. Vou começar a me divertir com o meu neto. — responde Jacob, abrindo um largo sorriso para Adria.

O motorista do táxi olha pelo espelho e também sorri. No cartão de identificação, pendurado no retrovisor, consta o nome deIbrahim Hussein Berro. Jacob está tão entretido com Adria, que não observa o nome do motorista.