Quebra de Contrato: “Cada um é responsável pelas escolhas que faz”

9 de junho de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Menachem não fica nem um pouco feliz com a “promoção”.

— Me agradeça por isso, rabino. Agora saia da minha frente! Soldado, suma com o resto!

Menachem se junta aos demais sonderkommandos, enquanto Jacob tenta fazer um contato visual com Haim, mas este não o vê.

Jacob e Max encaram-se e seguem Haim e os demais prisioneiros para o hospital. Quando a noite cai, Jacob monta guarda para Max atrás do alojamento. Ele cava no chão de terra, desenterrando um pequeno saco com alguns dentes de ouro e entrega para Jacob.

— Procure um ucraniano. — orienta Max.

Jacob caminha sorrateiramente pelos arredores da estação “Wolkowski” fugindo dos pontos de luz. Então avista um ucraniano com sua farda preta, troca algumas palavras e entrega-lhe o pequeno saco. O ucraniano analisa o conteúdo, adentra a estação e minutos depois, volta na companhia de Haim.

Jacob e Haim, abatido, encaram-se. O ucraniano leva Haim, distanciando-se da estação até os arredores do barracão dos prisioneiros do campo um. É madrugada. Missão cumprida.

No dia seguinte, Jacob, Max, Theodor, Elyakim, Menachem, Lyor, Tob e Shlomo, carregam sacos de areia, próximos ao alojamento de prisioneiros, onde Jacob deixou Haim na noite anterior.

— Seja breve Jacob, você não tem muito tempo. — diz Max.

Jacob afasta-se do grupo e abre a porta do alojamento, olha para os lados e encontra quem está procurando. Então segue para os fundos do alojamento, onde aguarda a chegada de Meyer e Haim, este muito abatido.

— Como ele passou a noite? — pergunta Jacob.

— Ardeu em febre, durante a madrugada. Precisa se alimentar. — responde Meyer.

— Foda-se como eu passei a noite, rabino! Eu quero saber o que aconteceu com aquele menino no gueto! Você não conseguiu salvá-lo, não é? — ataca Haim.

Jacob fica em silêncio por alguns segundos.

— Eu salvei você agora! — diz Jacob.

— Me salvou? Você só adiou a minha morte! Agora quer limpar a sua barra com o seu Deus inútil!

Jacob despe-se da jaqueta.

— Tome! Isso lhe pertence.

Jacob retira dos bolsos da calça dois pedaços de pão e entrega um para Meyer e outro para Haim. Meyer coloca o dele no bolso.

— Não guardem! Coma logo Haim, você precisa de energia. Amanhã, nesse mesmo horário, eu trarei mais pão. Cuide dele, Meyer.

— A quem você quer enganar, Jacob?

— Nós nos enganamos para sofrer menos, nos enganamos uns aos outros. Sobreviver tornou-se uma obsessão. Temos que investir nossas forças numa só direção. Sobreviver, sobreviver… Obter mais um pedaço de pão, um pouco de sopa, um dia a mais, conseguir acordar no dia seguinte. Coloque isso na sua cabeça, Haim!

— Amém. — responde Haim em tom de deboche.

Jacob o deixa e segue com seus companheiros para mais uma estafante e degradante jornada de trabalho. Não se sente nem um pouco livre, como querem fazer crer os nazistas quando dizem que o trabalho liberta. Ao contrário, a cada dia sente-se mais preso, sem perspectiva, como se estivesse prorrogando seu fim. Tudo cheira a morte, até mesmo um simples despertar depois de uma noite mal dormida. É assim, no dia seguinte e em todos os outros. Na manhã seguinte, o dia mal tinha clareado, quando ele desperta com um barulho de confusão no barracão.

— Levantem seus moleirões! Hoje tem muita “massa” para assar! Vamos rápido com isso! — diz o Kapo distribuindo agressões.

Jacob, Max, Theodor, Tob, Lyor, Menachem, Elyakim, Shlomo e os demais sonderkommando, apressam-se formando duas filas. Jacob estaca, perplexo diante de um dos catres. O corpo de Arieh está suspenso por um cinto amarrado ao seu pescoço.

— Toma todos os líderes do povo e enforca-os ao senhor diante do sol. E o ardor da ira do Senhor se retirará de Israel. — Shlomo recita uma passagem da Torá.

Do lado de fora do barracão, próximos de onde Haim deveria encontrá-lo, uma espessa fumaça negra sobe aos céus. Aproveitando que o SS interrompeu a caminhada para receber ordens de um oficial, Jacob destaca-se sem que o vejam e esgueira-se até a entrada do barracão, onde Haim dorme, mas não há mais ninguém lá. Ansioso, toma a direção dos fundos do barracão e mais uma vez se decepciona.

— Ao trabalho, seus sacos de merda! — grita o SS.

Jacob volta rapidamente a integrar à fila e segue marchando.

— Não há ninguém! — diz Jacob para Lyor.

— Devem estar trabalhando ou escondidos em algum lugar.

— Não seja ingênuo, Lyor, a essa hora já servem de adubo para os campos férteis de Treblinka. — diz Elyakim.

— Com certeza estão trabalhando. O campo acordou movimentado hoje. — tranquiliza Max.

Próximo à câmara de gás, à direita de onde estão Jacob e os demais, um grupo de prisioneiros é inspecionado por médicos e separado em dois subgrupos. Sabendo do que se trata, Jacob e seus companheiros descem as escadas até a antessala da câmara de gás. É um cômodo vazio. De um lado, as portas da câmara de gás estão lacradas. Do outro, a entrada para o cômodo, de modo que só há uma saída. De repente, a porta do cômodo se abre e centenas de prisioneiros preenchem o espaço, antes vazio. Jacob e os outros sonderkommandos não podem mais sair dali. Aos gritos, os soldados que fazem a segurança ordenam que cada um deles ocupe o seu lugar.

— Sem perder tempo! Livrem-se das roupas. Os objetos que encontrarem, coloquem à direita! — grita um soldado ucraniano.

Os prisioneiros começam a se despir. Um jovem recusa-se a tirar sua roupa, mantendo-se imóvel. Jacob aproxima-se.

— Você precisa tirar a sua roupa.

— Eu não vou ficar nu, têm homens aqui.

Jacob põe-se à frente do jovem, protegendo-o da visão dos demais prisioneiros.

— Vá, depressa!

— Não!

O SS aproxima-se de Jacob, agredindo-o com chicotadas.

— Depressa, seu verme! Ensine esse viado como se deve tirar a roupa.

Sem opção, Jacob arranca as roupas do jovem com agressividade. Nu, ele começa a chorar.

— Você trataria a sua mãe ou irmã dessa forma? — pergunta o jovem.

Outro prisioneiro jovenzinho, em desespero, grita aos demais.

— Mas o que há com vocês? Não têm vergonha? Por que choram? Em vez disso, deveriam rir, a fim de que os nossos inimigos não vejam que nos borramos diante da morte e não se alegrem com as nossas lágrimas!

O SS não para de distribuir chicotadas e Jacob tem que empurrar os dois jovens nus para a entrada da câmara. No mesmo ambiente, um prisioneiro já sem roupas, revira as próprias vestes no chão até encontrar um retrato dentro de um dos bolsos do paletó da calça. Amassa-o e fecha-o contra a mão. Jacob aproxima-se dele.

—   O que você tem aí?

—   Nada!

—   Abra a mão!

—   Me deixe!

Jacob usa a força de suas mãos para abrir a mão do prisioneiro. Então vê o retrato de um garoto de aproximadamente 10 anos, sorrindo. O SS intensifica as chicotadas sobre os prisioneiros e sonderkommandos. Jacob vira-se e vê Haim, seminu, ainda com a jaqueta, encarando-o.

—   Vista sua calça, eu vou tirar você daqui! — diz Jacob.

—   Eu não vou a lugar nenhum, não seja ingênuo! — responde Haim.

— Faça o que eu estou mandando!

— Acabou, Jacob!

— Cale a boca! Você vai sair daqui comigo!

— Pra onde, Jacob? Para levar uma bala na nuca em mais alguns minutos? Ou para morrer de fome em mais algumas horas? Eu não quero ir a lugar nenhum, a única maneira de me libertar disso aqui é morrendo!

— A morte não é o fim, Haim!

— É. Não é o fim. Ainda resta a briga pelo espólio…

Haim despe-se do casaco e joga-o contra o corpo de Jacob.

— Cumpra a função que você escolheu.

Jacob deixa escorrer lágrimas dos olhos.

— Olhe para o que você se transformou, Jacob… Você agora é um deles!

— Eu não tive escolha!

— Todos nós temos escolha.

Haim encara Jacob pela última vez e segue em direção à câmara de gás, sumindo na multidão de corpos nus e gritos de desespero. O SS aproxima-se de Jacob.

— Me dê isso! — diz tomando-lhe a jaqueta de Haim.

Jacob resiste, mas é espancado pelo SS, contudo, mesmo caído no chão, agarra- se à jaqueta, mas o SS espanca-o ainda mais. Jacob segura firme sobre um dos botões de metal da jaqueta, mas o SS retém à força a jaqueta, arrebentando o botão, que permanece nas mãos de Jacob. Sadicamente, o SS chicoteia ainda mais Jacob, que se protege cobrindo o rosto. Só depois que o faz sangrar muito é que o brutamonte se afasta. As mãos de Jacob estão ensanguentadas, mas o botão da jaqueta de Haim fica com ele. O serviço não para, e no fim da tarde, Jacob e o restante dos sonderkommandos, surpreendem-se com uma leva de outros vinte sonderkommandos para serem eliminados na câmara.

— Em breve, nossas cinzas também se juntarão à noite plúmbea de Treblinka. E o ar será empesteado pelo cheiro agridoce de nossas entranhas. — diz Elyakim.

— Somos apenas números nessa contabilidade macabra. — completa Tob.

— Sem compaixão, matai velhos, mancebos, virgens, crianças e mulheres até exterminá-los. — Shlomo recita mais uma vez a Torá.

— Há apenas um prato na balança de Treblinka. — encerra Theodor.

Jacob permanece em silêncio no canto da antessala até que todos saem. Errático, caminha pelo campo. Ainda tem sangue nas mãos. Então, depara-se com um grupo de soldados ucranianos embriagados que se revezam em enormes talagadas numa garrafa de conhaque.

— Venha beber com a gente, judeu!

Jacob movimenta-se em direção a eles com desconfiança.

— Os russos estão perto de Treblinka. Em breve, vocês estarão em melhor situação que nós! Isso se conseguirem escapar de Franz, que deu ordens para multiplicar a produção da “fábrica”. — diz um deles.

— Nos vemos no inferno, judeu! — finaliza a conversa outro ucraniano, desencadeando gargalhadas histriônicas.

De volta ao alojamento e esbaforido, Jacob descansa para tomar fôlego recostado na porta, enquanto observa os companheiros em seus catres. Menachem, o rabino que havia sido poupado por Franz, ora de olhos fechados, sentado sobre seu catre, fazendo um movimento pendular. Jacob fita-os um por um, até que Max o percebe e pergunta:

— Onde você estava Jacob?

— Estava aqui admirando a nossa passividade diante da morte. Você, Max, como deixou que seu ímpeto revolucionário desse lugar à resignação?

— Quando o Eterno revelar seu reinado, a terra se rejubilará… — ora Menachem.

— Nós não temos armas. Sem armas não há revolução, Jacob. — responde Max.

— O que me diz de nossos braços e pernas? Vamos esperar que eles sucumbam à fome e ao chicote?

Max não responde.

— E você Tob, acha que vai sobreviver às estatísticas? Tob abaixa a cabeça.

— Vejam Elyakim, por exemplo, que insiste em enxergar a realidade como um verso soturno de Baudelaire.

— … Justiça e misericórdia será o fundamento do seu trono. — continua a oração, Menachem.

Jacob circunda o cômodo, dirigindo-se a cada um.

— Shlomo, diga-me: Assim como o profeta Isaias, você acredita que os nossos opressores comerão sua própria carne e ficarão bêbados do seu próprio sangue, como se fosse vinho?

— … A luz é semeada pelo justo… — continua Menachem.

— Menachem, como pode ter a certeza de que está sendo ouvido?

— … E a alegria para os retos de coração. — Menachem continua sem lhe dar atenção.

— Onde estão vocês? Digam-me!

— Acabem logo com essa discussão inútil! Eu quero descansar antes que algum SS chegue! — brada o Kapo.

— O que você espera de nós, Jacob? — inquire Theodor.

— Ação! Chega de rezas e súplicas. Chega de ilusões infundadas. Temos que nos levantar! Os russos estão a caminho e os alemães não pretendem deixar vestígios do seu crime. Franz já deu a ordem, as execuções irão se multiplicar.

— Eu já mandei calar a boca, seu judeu de merda! — grita o Kapo.

— Não pense que irá escapar dos alemães ou dos russos! Nenhum deles gosta de vocês poloneses! — responde Jacob para o Kapo.

— Essa guerra deve acabar em alguns dias e Deus vai nos ajudar, você vai ver. — concilia Shlomo.

— Não pensem que porque eu os deixo falar vocês podem me prejudicar! Não quero mais ouvir a voz de vocês! — ultima o Kapo, levantando-se e aproximando-se de Jacob.

— Você acha mesmo que está no comando? — pergunta Jacob desafiando o Kapo.

— Pouco me importa quem comanda vocês fora deste barracão. O que vocês faziam lá fora? Eram advogados, médicos, professores?… O mundo está de cabeça pra baixo, e ao contrário de vocês, eu melhorei de vida… Antes eu era perseguido pela lei, agora, aqui dentro, a lei sou eu. Vocês sabem o que isso significa? Que vocês estão todos fodidos, daqui só escapam mortos… Escute bem o que eu vou falar rabino. Hitler pode ser chanceler ou presidente lá fora ou na puta que o pariu, mas aqui dentro, eu sou Deus, e é melhor se acostumarem com isso, enquanto estiverem vivos. — responde dando as costas para Jacob.

Nessa hora tudo muda em sua cabeça. Cansado de esperar pela morte, Jacob decide ir de encontro a ela. “Posso até morrer, mas pelo menos vou fazer alguma coisa para mudar o comportamento passivo dessa gente.” — pensa.

Sem que o kapo perceba ou espere, ele pula em seu pescoço, aplicando-lhe uma gravata.

— Vocês não vão fazer nada? — pergunta Jacob, imobilizando o Kapo.

Max e Tob ajudam-no com o Kapo. Elyakim rasga um lençol velho e amarra os pés e as mãos dele, depois o amordaçam.

— Muito bem, Jacob, agora o que faremos? — pergunta Elyakim.

— Isso só nos trará mais desgraça! — diz Shlomo com medo.

— Agora nós vamos julgar o verdadeiro responsável pela nossa desgraça! — declara Jacob.

— Não seja ingênuo, Jacob, ele é apenas um criminoso comum que teve a chance de ascender sobre nós. — diz Lyor referindo-se ao kapo.

— Não falo deste infeliz, Lyor. Ele será apenas a nossa testemunha. Falo do único responsável… Deus!

Menachem interrompe a oração e abre os olhos fitando Jacob e grita. — Blasfêmia!