Quebra de Contrato – A Fuga

3 de agosto de 2018
Kito Mello
por

Presidente da ASBI - ASSOCIAÇÃO SIONISTA BRASIL- ISRAEL. Professor, autor-roteirista, escritor, pesquisador e ghost writer.

Elyakim mira na direção de Kurt Franz e dispara, mas erra o alvo. Franz joga-se ao chão, escapando ileso, mas incita seu cão Dämon, apontando o dedo na direção de Elyakim. O cão dispara em direção a ele, que tenta correr, mas logo é alcançado. Furioso, Dämon estraçalha as pernas de Elyakim com mordidas violentas até que ele, finalmente, dispara um tiro na cabeça do animal. Kurt Franz vê a cena e se desespera. Possuído por um ódio descomunal, ele corre até Elyakim, que se arrasta sangrando, tentando encontrar um lugar para se esconder, mas não dá tempo. Kurt descarrega sua pistola Mauser 7.65, executando-o com oito tiros.

Nos arredores do alojamento dos prisioneiros do campo 2, duas grandes explosões destroem as câmaras de gás, provocando grandes labaredas. Max, alicate à mão, corta apressadamente alguns fios da cerca de arame farpado para dar vazão à multidão de prisioneiros que corre em sua direção, gritando: “Revolução em Treblinka!”

Uns vão sendo pisoteados, enquanto outros, são alvejados pelos soldados da Wehrmacht. Contudo, centenas deles ultrapassam a cerca em direção ao campo 1.

Max tenta aumentar a passagem, cortando outros fios de arame farpado, enquanto mais prisioneiros escapam, mas é alvejado. O alicate cai de sua mão. Ferido, lança-se sobre a cerca, recebendo outros tiros até cair morto.

Na Casa das Armas, Theodor arromba a porta, enquanto outro prisioneiro dá cobertura, atirando na direção dos soldados que aparecem como um enxame de abelhas africanas. Os prisioneiros que conseguem escapar pela passagem que Max havia feito na cerca que dividia os dois campos, adentram o depósito de armas e saem dali, armados de pistolas, fuzis e granadas. Theodor abre fogo sobre os inimigos, seguido por outros prisioneiros que correm na direção do portão principal.

Nos arredores do alojamento dos sonderkommandos, mais explosões, tiros e correria. Jacob e Tob correm em direção à bomba de gasolina, mas quando se aproximam, Jacob estaca.

— Vá na frente!

— Aonde você vai? — pergunta Tob.

— Eu não vou demorar!

Jacob dirige-se ao alojamento dos sonderkommandos. Tiros e gritos ecoam do lado de fora. Diante de um dos catres está Menachem, de pé e com os olhos fechados, rezando em voz alta e fazendo um movimento pendular. Ele reza um kadish por Lyor. Jacob estaca diante dele.

— Yitgadal veyikaddash shemêh rabá…

— Vamos embora, Menachem! Ainda dá tempo da gente se salvar!

— bealmá di verá chirutêh, veiamlích malchutêh…

Jacob pega Menachem pelo braço, forçando-o a ir com ele.

— Me deixe morrer em paz! — grita Menachem.

Jacob solta Menachem e o olha com pesar. Mordko e Katz aparecem na porta do alojamento.

— Vamos embora Jacob, ou morreremos aqui!

Jacob corre em direção à porta.

Do lado de fora um intenso tiroteio com balas zunindo por sobre suas cabeças, acertam tudo e todos em volta. Tob está caído, baleado. Jacob corre em seu socorro, ziguezagueando para fugir dos tiros até alcançá-lo.

— Vamos embora, Jacob! — grita Mordko.

Katz corre sem parar, deixando-os para trás.

— Fuja garoto! Deixa que eu me viro.

Mordko começa a correr desviando das balas, que não param de persegui-lo, acertando tudo em volta.

— Vai embora, Jacob! Corra o mais rápido que puder! Isso aqui vai pelos ares! — pede Tob.

— Apoie-se em mim, vamos sair daqui juntos! — diz Jacob.

— Não se preocupe amigo, se eu conseguir levar esses demônios juntos comigo para o inferno, morrerei feliz! Agora, vá! Fuja daqui!

Jacob deita a cabeça de Tob no chão e corre em disparada. Tob retira a granada que está sob suas vestes, mas é alvejado outra vez. Jacob corre o máximo que pode em direção ao portão principal, até que, atrás dele, uma grande explosão incendeia todo o campo 1, matando muitos soldados e consumindo o corpo de Tob.

Jacob e Theodor lançam então, duas granadas contra o portão principal, explodindo-o. Com a passagem desobstruída, ambos fogem em disparada, seguidos por uns duzentos prisioneiros, que gritam: “Revolta em Treblinka!”

Mas fugir dos alemães não é tão fácil assim. Ultrapassado o portão principal, Jacob, Theodor e outros prisioneiros, bastante ofegantes, correm dando o máximo de suas energias, em direção ao bosque, mas são perseguidos por um comboio nazista, que dispara balas de grosso calibre contra a turba em fuga. Prisioneiros aqui e ali, caem mortos, reduzindo-os a um grupo de aproximadamente cem rebeldes. Jacob e Theodor são ultrapassados por Katz e Mordko, mais jovens, por isso, mais velozes. Eles lideram a corrida desesperada pela vida. O bosque à frente fica cada vez mais próximo.

Alguns prisioneiros decidem se separar formando dois grupos. Jacob e Theodor, Katz e Mordko permanecem juntos no grupo, que não deve ter mais do que vinte pessoas. O restante, uns setenta prisioneiros, vão para o lado oposto ao deles. Faltam poucos metros para chegarem ao bosque. Mas os alemães disparam várias rajadas de suas metralhadoras. Theodor cai morto. Jacob chora e grita, mas não para de correr. Na sua frente, a menos de dez metros do bosque, Katz tomba sem vida. Mordko e poucos prisioneiros alcançam o bosque, logo em seguida é a vez de Jacob se embrenhar na mata. Como o outro grupo de prisioneiros é maior, os alemães decidem dar prioridade para recapturá-los. Jacob, Mordko e mais dezoito homens conseguem escapar ao cerco alemão, no entanto, o outro grupo é trucidado e nunca mais se tem notícias desses heróis.

Desde a primeira explosão até a fuga, eles levam onze minutos, mas o saldo é favorável aos carrascos nazistas. Na contabilidade macabra, mil e cem prisioneiros foram mortos, sendo 90% deles judeus. Somente cento e oitenta conseguiram passar pelo portão em direção ao bosque. Entre soldados da Wehrmacht e os guardas ucranianos, a baixa é de cento e dezessete mortos e quarenta feridos. Imóveis, deitados sobre o sangue dos seus irmãos e sob a mira dos nazistas, os judeus que não ousaram fugir, aguardavam as ordens de Kurt Franz.

Após uma semana vagando pelo bosque, sem alimento, água e passando frio, dezoito fugitivos foram resgatados por um grupo de *partisans judeus. Esses sobreviventes foram a memória viva dos fatos ocorridos no dia 2 de agosto de 1943, em Treblinka. Com a coragem demonstrada ao mundo, eles apresentam a nova face do judeu. Agora, mesmo diante das piores adversidades, não se entregarão e lutarão, se necessário for, e até a morte.

Essa verdade gravada no coração de cada judeu conseguiu ser traduzida em palavras por Menachem Begin, em seu famoso livro: A Grande Revolta, onde está citado:

“Foi do sangue, do fogo, das lágrimas e das cinzas que um novo tipo de ser humano nasceu, um gênero absolutamente desconhecido pelo mundo por mais de mil e oitocentos anos, o judeu combatente.”

Com a ajuda dos partisans, Jacob, Mordko e os outros dezesseis prisioneiros ficam sob a proteção deles até o fim da guerra.

PARTISAN é um membro de uma tropa irregular formada para se opor à ocupação e ao controle estrangeiro de uma determinada área. Os partisans operavam atrás das linhas inimigas. Tinham por objetivo atrapalhar a comunicação, roubar cargas e executar tarefas de sabotagem. O termo ficou conhecido durante a Segunda Guerra Mundial para se referir a determinados movimentos de resistência à dominação alemã, principalmente no Leste Europeu.