Paulo Freire, amorosidade e adeus

20 de abril de 2018
Anamaria Camargo
por

É professora, Mestre em educação com foco em E-learning, pela Universidade de Hull, Inglaterra, onde atuou como professora de 2006 a 2014.

Li no blog de Antonio Gois que sábado passado foi celebrado o aniversário de 50 anos de lançamento do livro ‘Pedagogia do Oprimido’, em Nova Iorque, no “maior encontro de pesquisadores de educação do mundo”. Homenagens rendidas pela nata dos educadores a Paulo Freire, autor de um dos livros mais presentes em bibliografias das universidades de língua inglesa do mundo.

Não pude deixar de relacionar este evento a algo que se passou por aqui há pouco mais de uma semana, com a diferença, claro, de que o homenageado em Nova Iorque jamais foi condenado por crime algum. De onde estiver, Paulo Freire há de me perdoar a comparação. Na verdade, a relação que estabeleci foi mais entre os séquitos de um e de outro. O delírio, o transe, a hipnose coletiva. Twilight zone total.

Talvez seja a este tipo de delírio que Paulo Freire se referia quando usava a palavra ‘amorosidade’. Digo isto porque, por mais que eu tente, não consigo encontrar nos feitos dos tiranos que ele elogia em seus livros, qualquer resquício de amor. O comunismo matou 100 milhões de pessoas no mundo. Na China de Mao Tsé Tung — referência literária para Paulo Freire —, foram 65 milhões de mortos. Na URSS, 20 milhões. Segundo o projeto Cuba Archive, foram 7.326 mortos e desaparecidos nas prisões cubanas, a maioria (quase 6.000) fuzilada ou assassinada extrajudicialmente. Não se incluem aí os afogados que tentavam fugir da ilha prisão; estes perfazem dezenas de milhares segundo diversos relatos. Fora os outros países.

No entanto, Paulo Freire se derrama em amorosidade (delírio? transe?) sobre os líderes da ditadura cubana, a mais letal das Américas:

“Não podemos parar a revolução, não o podemos. Os neoliberais andam dizendo que é preciso parar de falar disso, terminar de usar estas palavras, mas eu digo que, pelo contrário, temos de usá-las. A revolução de vocês está em marcha! Eu admiro Fidel, como admirei e sigo admirando a Guevara. Eu admiro Fidel precisamente por causa da valentia de amar que ele tem ao levantar o seu povo contra uma enorme tirania. Não há dúvida alguma que a presença de Cuba, para mim, segue sendo eficaz, e que mais e mais contribuirá para a solução dos problemas da América Latina.” (Comité Intergremial para la Alfabetización (CIAZO). Paulo Freire en El Salvador. El Salvador, 1992, p. 52.)

O trecho acima, publicado no livro Desconstruindo Paulo Freire, foi proferido por Paulo Freire em 1992, já com o conhecimento das dezenas de milhões de mortos que o comunismo produziu e, mais especificamente, diante da miséria do povo cubano e dos longos anos de ditadura e assassinatos a eles impostos. Infelizmente, o amoroso autor morreu antes de ver a enorme contribuição que os ideais da “pedagogia” cubana trouxeram ao povo da Venezuela. Quem sabe se, dessa vez, a fome, a tortura e a dor impingidas aos reais oprimidos conseguiriam despertar nele alguma empatia?

Em seu blog, Antonio Gois nos lembra que reduzir Paulo Freire a “um doutrinador marxista, como alguns grupos querem fazer no Brasil, é desconhecer a importância de um dos mais influentes educadores do mundo”. Ele está certo. Não se pode subestimar a importância, a influência, o poder de alguém capaz de mesmerizar educadores mundo afora, mesmo após dizer barbaridades como essas.

Vale lembrar, no entanto, que os mesmerizados em questão são os mesmos que (talvez sob hipnose coletiva) apoiam o banimento de ‘A Divina Comédia’ por suposto racismo, homofobia, anti-islamismo e anti-semitismo; e de Shakespeare por ter sido homem e branco. São os mesmos que aplaudem protestos contra o line-up do curso de inglês de Yale, que traz Chaucer, Spenser, John Donne, Milton, Alexander Pope, Wordsworth, T.S. Eliot além do próprio Shakespeare. São os mesmos que consideram esses autores ofensivos e opressores. É justo que o façam. Quem bane Shakespeare e Chaucer e se sente oprimido por Dante merece mesmo é Paulo Freire.

Pessoalmente, como não costumo entrar em transes de idolatria nonsense, sigo achando que não há respeito possível por “educador” que tergiversa com ditadores e genocidas, qualquer que tenha sido sua eventual contribuição acadêmica. Dedico a minha admiração aos professores anônimos que, mesmo sem fama ou séquito de gringos hipnotizados, respeitam a vida e a liberdade, e acreditam que educar é verdadeiramente libertar.

Deixo nesta minha coluna de despedida, minha amorosidade para Marina, minhas boas-vindas para Elisa e meus agradecimentos para os leitores que me acompanharam até aqui.