Alexandre GuilhermeColunaLendas

O Pacto

O mistério dos versos perdidos no inquérito do tempo seguia um conceito mágico, envolto em palavras que pareciam ultrapassar a razão. Havia algo de lírico e inquietante naquele universo, como se cada pensamento fosse apenas um casulo escondendo uma verdade ainda maior.

 

Foi nesse contexto que conheci um senhor de 80 anos que possuía a aparência de um homem de apenas 20. Quem o encontrava pela primeira vez simplesmente não acreditava quando descobria sua verdadeira idade. Vestia-se sempre com roupas e uma longa capa preta, o que aumentava ainda mais o ar de mistério que o cercava.

 

Ele era psicólogo. Movido pela curiosidade, resolvi perguntar sobre sua história. Com uma serenidade impressionante, ele me contou que, quando ainda era jovem, desejou conhecer os segredos da magia e, para isso, fez um pacto obscuro com o próprio tempo.

 

Confesso que não acreditei em uma única palavra.

 

Percebendo minha incredulidade, ele me convidou para conhecer sua casa. Aceitei o convite. Assim que cheguei, fiquei impressionado. O lugar era completamente diferente de qualquer outro que eu já havia visitado. Havia uma energia intensa no ambiente. Ervas medicinais secavam penduradas pelas paredes, os assentos eram feitos de troncos de árvores e a iluminação era fraca, quase sombria.

 

Aproveitei a oportunidade para fazer algumas perguntas.

 

— Existem realmente seres como os duendes? — perguntei.

 

— Sim — respondeu ele, sem hesitar.

 

Logo em seguida, perguntei sobre Deus.

 

Ele abaixou a cabeça por alguns instantes e respondeu:

 

— Ninguém pode se aproximar de Deus. Sua luz é infinita e intensa demais para qualquer ser criado. Apenas Jesus Cristo, Seu Filho muito amado, permanece junto d’Ele.

 

Mesmo ouvindo aquelas palavras, continuei duvidando.

 

Foi então que aconteceu algo que jamais esquecerei.

 

Um empresário que eu conhecia entrou na casa completamente desesperado. Estava endividado e afirmava que um pistoleiro o perseguia com a intenção de matá-lo.

 

O velho permaneceu calmo.

 

— Sente-se naquele tronco de jequitibá e permaneça em silêncio, aconteça o que acontecer.

 

O empresário obedeceu.

 

Poucos minutos depois, um homem armado invadiu a propriedade. Trazia um fuzil nas mãos e demonstrava uma fúria assustadora.

 

— Você conhece um empresário que passou por aqui? Vou matá-lo! — gritou.

 

O velho respondeu tranquilamente:

 

— Não conheço ninguém com essa descrição.

 

O pistoleiro começou a vasculhar toda a casa. Caminhou por todos os cômodos e passou exatamente ao lado do tronco onde o empresário estava sentado.

 

Em determinado momento, bateu o fuzil com força no chão, a poucos centímetros do homem escondido.

 

Mas algo impossível acontecia.

 

O empresário permanecia completamente invisível aos olhos do pistoleiro.

 

Enquanto isso, o velho permanecia imóvel, murmurando palavras incompreensíveis, como se estivesse realizando algum tipo de ritual.

 

Depois de alguns minutos, o matador desistiu e foi embora.

 

O silêncio tomou conta do ambiente.

 

Então o velho sorriu e disse ao empresário:

 

— Pode ir agora, meu filho. Ele não voltará a incomodá-lo.

 

Fiquei completamente sem palavras.

 

O senhor voltou-se para mim e perguntou:

 

— Agora você acredita que existem forças além daquilo que os olhos podem enxergar?

 

Continuei em silêncio.

 

Ele então perguntou se eu desejava sua proteção.

 

Respirei fundo e respondi:

 

— Agradeço sua oferta, mas Deus é o meu protetor.

 

Ele sorriu discretamente.

 

— Cada pessoa escolhe o caminho que deseja seguir. Eu fiz a minha escolha por vontade própria e conheço o fim da minha história.

 

Curioso, perguntei o que queria dizer.

 

Ele respondeu com absoluta tranquilidade:

 

— Quando eu morrer, minha esposa, que ainda terá apenas 20 anos de aparência, deverá cumprir uma única missão. Ela deixará ao lado do meu túmulo uma garrafa de pinga e um mastro com uma vela acesa. Depois, dará as costas ao túmulo. Não poderá olhar para trás nem uma única vez. Apenas seguirá o próprio destino.

 

Naquele instante, um vento frio atravessou a casa.

 

Não perguntei mais nada.

 

Saí dali levando comigo uma única certeza: existem histórias que desafiam toda explicação, e algumas delas talvez nunca devam ser totalmente compreendidas.

 

Escrito por Alexandre Guilherme

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