Experiência nômade em universidades européias

24 de novembro de 2018
Ana Laura Montenegro
por

Carioca e filha de militar já morei em 5 Estados do Brasil. Sai do país para viver no exterior com 19 anos, em 2014, ingressei na faculdade em Portugal. Estudei ciência política e relações internacionais na Universidade Católica Portuguesa em Lisboa e fiz um intercâmbio de um semestre na Universidade alemã de Konstanz. Em 2018 terminei meu MBA na Espanha na Universidad de Burgos, e atualmente estou fazendo voluntariado.

A mudança de cidade ou de vida, que pode parecer tão assustadora ou inalcançável a tantas pessoas já faz parte da minha realidade desde criança. Devido a profissão de militar do meu pai, eu tive a oportunidade de morar em 5 estados brasileiros (Rio de Janeiro, Rondônia, Amazonas, Paraíba e Alagoas) e conhecer um Brasil que poucos tem a oportunidade de testemunhar.

Essa vida de nômade continua ainda hoje com 23 anos. Aos dezenove, minha família resolveu fugir da violência do nosso querido país para Portugal, se aventurando sozinha em uma nova realidade no estrangeiro.

Entrei para a faculdade em Lisboa, e sofri meu primeiro grande choque cultural. Nunca tinha sido tão difícil me adaptar a uma nova realidade. As dificuldades eram em todos os níveis: sotaque, vocabulário, comportamento social, preconceito com o fato de ser brasileira e o frio do inverno. Meus primeiros dois anos em Portugal foram muito duros e solitários, apesar de ter conseguido fazer algumas poucas amigas. Aproveitei um programa de intercâmbio entre universidades européias chamado Erasmus, similar a programas de intercâmbio entre universidades brasileiras e estrangeiras, e fui para a Alemanha.

Curiosamente durante o processo burocrático, descobri que uma colega da minha turma também iria para a mesma cidade que eu, Konstanz, na mesma época, fazer o intercâmbio. Fiz mais uma amiga e tive a oportunidade de conhecer a cultura alemã e experimentar um ambiente internacional com pessoas dos mais variados países convivendo juntas. A maioria dos alunos de Erasmus são oriundos da Europa, mas não necessariamente. Havia americanos, canadenses, israelenses, australianos, asiáticos e etc.

Essas duas experiências me ensinaram que é muito importante destacar que viver em um novo país é muito diferente de viajar nele. Os residentes irão te tratar de outra forma. Comportamentos com os quais você não está familiarizado ou não gosta, vão fazer parte da sua nova rotina. Enquanto que viajando, as chances de você só aproveitar o que há de melhor e ser mais bem tratado aumentam drasticamente. Essas foram duas grandes lições que aprendi morando no estrangeiro.

Outro aprendizado do meu intercâmbio, é que esse ambiente é uma espécie de realidade paralela. Quando chegamos sozinhos em um local novo, estamos naturalmente mais propícios a fazermos amigos, experimentar, conhecer e vivenciar coisas novas, além de uma maior abertura para lidar com pessoas muito diferentes de nós. Esse tipo de abertura cria um novo universo, mais liberal que a realidade do dia a dia da maioria das pessoas.

Este ambiente atípico irá atrair dois tipos de indivíduos. O primeiro tipo é o que busca novidade, alguns para sair da mesmice do dia a dia, uns por motivos profissionais e outros buscando um crescimento pessoal fora da sua zona de conforto. O intercambio e a mudança de país (mesmo que pelo período de um ano) são mais do que recomendadas.

Um ambiente universitário internacional é divertido e irá te ensinar muitas coisas, sem
dúvida, mas se o caso for mudar de país para trabalhar ou ir cursar uma universidade o
melhor a fazer é se misturar com os locais, na minha opinião.

Será muito difícil no início por estarmos acostumados com as pessoas excessivamente abertas no Brasil, enquanto que aqui é necessário trabalhar a confiança entre ambas as partes para que surja uma  amizade.

Além disso, é importante lembrar que você é o estrangeiro e que é você quem tem que fazer o esforço para se adaptar, não os nativos do seu país de imigração. A casa é deles e você sempre será a pessoa de fora, por mais bem recebido que seja, e acredite: alguém sempre irá te lembrar isso.

Caso não sinta que as pessoas não se esforçam para te receber, não as leve a mal, elas estão na sua zona de conforto, na vida de sempre, com o mesmo ciclo social desde que nasceram. E muito provavelmente julgam que a realidade é apenas aquela que conhecem, a maioria dos tratamentos de indiferença, falta de empatia ou a excessiva curiosidade não são propositadas.

No entanto, quem opta pelo comodismo de permanecer em volta de pessoas com a mesma nacionalidade que ela, deixa de aprender e entender as coisas do país de onde mora de uma outra forma, e de ensinar sobre a sua cultura e promover a tolerância.

Estará vivendo no mesmo país, apenas com uma paisagem diferente, e os estrangeiros continuarão sendo vistos apenas como estrangeiros e as pessoas taxadas de acordo com suas nacionalidades e esteriótipos pré-definidos.

O segundo tipo, é uma pessoa não tradicional no seu país de origem. Do meu ponto de vista, são os indivíduos acostumados a lidar com realidades muito diferentes da dela ou a se sentirem um pária. Normalmente são pessoas que viajam muito, trabalham com pessoas que tem uma cultura diferente da dela, tem pais estrangeiros ou já moraram fora. Isso porque quando entramos em contato ou vivemos em realidades que não correspondem ao nosso conceito de normalidade, começamos a questionar tudo o que conhecemos e olhar para nossas próprias origens de outra forma, gerando novos julgamentos.

Essas experiências fora da nossa terra natal, para além do que aprendemos no meio acadêmico, se transformam em riqueza cultural, expandindo nossos horizontes pessoais. Passamos a nos conhecer melhor, a sermos mais independentes e flexíveis para resolver novas situações em termos de comportamento humano ou adoção de novas regras. Vivemos em um mundo extremamente volátil e este tipo de conhecimento pode ser muito útil no dia a dia.

Após este intercambio, eu retornei a Portugal para terminar a faculdade. Posso dizer que depois desse distanciamento minha experiência com esse país lusitano melhorou muito. Já não estava preocupada em me encaixar, havia aprendido a cadencia dos comportamentos sociais e havia feito amigos ao longo do tempo. Alguns graças a amigos mais antigos, e mais uma vez pré julgamentos a respeito de um mesmo local foram transformados.

Terminando a licenciatura, fui para a Espanha fazer um MBA. Morei em uma pequena cidade chamada Burgos, 3h ao norte de Madri, uma cidade linda e pólo industrial. Apesar de terem uma realidade mais parecida com a portuguesa, os espanhóis me ensinaram a valorizar coisas com as quais já estava acostumada e dadas como certas (tanto no Brasil, quanto em Portugal ou Alemanha), como por exemplo, os horários. Confesso que a “cesta” foi algo complicado de aceitar ou os horários de funcionamento dos estabelecimentos.

A Espanha também confirmou uma suspeita que eu tinha: as pessoas são muito mais parecidas umas com as outras do que pensam. Por mais que existam diferenças culturais (as vezes marcantes) entre uma civilização e outra, somos todos humanos, somos todos da mesma espécie, todos temos personalidades diferente e todos precisamos um dos outros e por isso é necessário que haja um respeito mútuo.

Todas estas experiências, vivências e lições que eu aprendi na prática (por mais óbvias que possam parecer quando escutamos alguém falar), tem um preço alto. A vida de nômade precisa ser associada automaticamente a palavra saudade. Faço amigos e conhecidos em diversas partes do mundo e por isso estou sempre longe de alguém e tendo que lidar com esse sentimento. É normal se sentir só às vezes, ou mesmo ter  crises existenciais quando se decide adotar esse estilo de vida, mas como já dizia uma antiga professora de economia minha “não há almoços grátis.”