Alexandre GuilhermeColunaLendas

Conto: Transmutação

Perguntar o tamanho de cada acontecimento, medir o peso de cada caso contado, consome o lençol de estrelas que chove sobre a verdade. Rasga-se, assim, a gana daquilo que as câmeras da alma chamam de lama, enquanto a fama, estabilizada nos galhos da moralidade, tenta amparar a beleza escondida por trás de cada história.

Havia fatos fantasiados de diálogos, acontecimentos que atravessavam gerações e sustentavam uma velhice que parecia não ter fim. A juventude surgia como um painel que se abria diante de uma grande idade, enquanto uma nação inteira era consumida pelos porões de uma invasão silenciosa, daquelas que não precisam de armas para permanecer acordadas.

No centro daquela nação havia um líder.

Governava havia mais de cinquenta anos.

Seu comando não conhecia descentralização. Não havia espaço para vozes coletivas, conselhos ou decisões compartilhadas. Tudo passava por ele. Tudo terminava nele. Ao seu redor permanecia um exército que parecia eterno, formado por homens treinados para obedecer e permanecer.

Mas o tempo, mesmo quando ignorado, cobra sua dívida.

O líder já havia ultrapassado os cem anos. Sua matéria começava a se desintegrar lentamente, como se o próprio corpo tivesse perdido o compromisso de permanecer unido. A pele carregava o peso dos séculos, os movimentos eram cada vez mais difíceis e a respiração se transformava em um esforço.

Ainda assim, seu subconsciente resistia.

Ele se recusava a desaparecer.

O líder tinha filhos. E alguns deles estavam aprisionados.

Não eram prisioneiros comuns. Faziam parte de um projeto secreto, conduzido por um cientista brilhante e transtornado, que dedicara a própria existência à busca por uma forma de vencer a morte.

O cientista havia desenvolvido um método capaz de manter o poder concentrado sobre a nação. Porém, para concluir sua experiência, precisava do próprio líder.

O governante era, ao mesmo tempo, senhor e cobaia.

O projeto era simples apenas na aparência: aproveitar a inteligência acumulada pelo líder durante décadas e transferi-la para o corpo jovem de um de seus filhos. Uma transmutação entre matéria e consciência. O corpo seria renovado; a mente permaneceria a mesma.

E, acima de ambos, estaria o cientista.

Ele acreditava que, controlando a mente do líder dentro de um novo corpo, poderia controlar para sempre o destino da nação.

Mas o tempo corria contra ele.

O líder já estava praticamente morto. Seu corpo se desfazia diante dos olhos daqueles que acompanhavam a experiência, enquanto sua consciência permanecia presa a uma vontade obstinada de continuar existindo.

Foi então que um dos filhos conseguiu escapar.

Ferido e assustado, atravessou os limites do cativeiro e procurou aqueles que viviam à margem da nação: os excluídos, os esquecidos, os que haviam aprendido a sobreviver longe das ordens do poder.

Contou-lhes tudo.

E, pela primeira vez em muitas décadas, aqueles que não tinham voz decidiram falar.

Reuniram-se.

Invadiram o local onde o líder e seus filhos estavam mantidos.

A batalha foi breve, mas decisiva.

Quando chegaram ao centro do laboratório, o líder já não respirava.

Seu corpo havia finalmente cedido.

O exército que o protegia foi rendido. As portas das celas foram abertas. Os filhos foram libertados. E, pela primeira vez, aquela nação descobriu como era existir sem um único homem segurando todas as rédeas.

Não havia sucessor.

Não havia herdeiro.

Não havia outro líder preparado para ocupar o lugar deixado pelo antigo governante.

Então, a população improvisou uma nova forma de conduzir a nação.

Criaram um sistema de rodízio.

A cada ano, alguém do povo assumiria o bastão da liderança. Ao terminar seu período, não poderia retornar ao poder. Aquele que liderasse uma vez jamais poderia liderar novamente.

A nação, cansada de eternizar homens, decidiu eternizar a possibilidade de mudança.

Mas o cientista havia escapado.

Durante a batalha, desaparecera entre os corredores destruídos do laboratório. Ninguém sabia para onde tinha ido.

Dias depois, uma mendiga apareceu nos arredores de uma cidade distante.

Caminhava lentamente, carregando apenas alguns trapos e um olhar que parecia velho demais para aquele corpo.

Ninguém sabia seu nome.

Ninguém imaginava sua origem.

Era o cientista.

Antes de fugir, ele havia realizado sua própria experiência. Transmutara-se para outro corpo, abandonando a antiga aparência e levando consigo aquilo que considerava mais valioso: sua consciência.

Agora, vagava por um espaço desconhecido.

Não procurava riqueza.

Não procurava poder.

Procurava algo muito mais perigoso.

Um lugar onde pudesse encontrar uma nova forma de vida para alimentar sua experiência.

Um novo corpo.

Uma nova mente.

Uma nova nação.

E, talvez, um novo começo para o mal que jamais havia realmente morrido.

Escrito por Alexandre Guilherme

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