Conto: Sentimentos Lunares

Em um espaço estelar, entre campos magnéticos e fragmentos do cosmos, energias desconhecidas clareavam o céu de Saturno, unindo-se ao universo sereno de um tempo chamado pelo fervor de um brilho ancestral que rasgava o instante.
Muitos anos atrás, uma bióloga americana deixou seu país acompanhada do marido. Sem conhecer o Brasil e sem qualquer familiaridade com aquela região, os dois chegaram, quase por acaso, ao norte do estado de Goiás.
Caminhavam sem rumo definido, como se uma força invisível os conduzisse. Havia naquele lugar uma energia diferente, uma espécie de chamado que parecia nascer da própria terra.
De repente, atravessaram um grande portal de energia.
Do outro lado, encontraram uma beleza que jamais poderiam imaginar.
Durante o dia, o sol dançava sobre as montanhas em uma luz que parecia curar a alma. A chuva descia pelas cachoeiras como fios de prata, enquanto a natureza se revelava em sua forma mais misteriosa. À noite, as estrelas pareciam labaredas de glória espalhadas pela galáxia, refletindo-se nos cristais e iluminando o silêncio.
Os habitantes daquele lugar pareciam possuir uma transformação planetária de luz. Seus olhos brilhavam como esmeraldas vivas, e a fauna harmonizava-se com flores que pareciam emitir gritos metafísicos. Era como se outro planeta tivesse sido escondido dentro da própria Terra.
Havia, naquele território, a sensação de que espaçonaves invisíveis atravessavam o céu, acompanhadas por cometas silenciosos. Era uma terra de mistérios, de caçadores de seres invisíveis e de pessoas que acreditavam enxergar além daquilo que os olhos comuns conseguiam perceber.
Foi nesse lugar que o casal decidiu permanecer por algum tempo, realizando pesquisas e explorando aquela natureza extraordinária.
Em uma de suas caminhadas, chegaram a uma cachoeira conhecida pelos moradores como Cachoeira das Viúvas.
Enquanto observavam as águas, o marido da bióloga perdeu o equilíbrio sobre uma grande pedra e caiu na cachoeira.
Um jovem da região, que estava próximo, imediatamente tentou salvá-lo.
O rapaz possuía uma aparência incomum. Seus cabelos tinham a cor do fogo e seus olhos eram profundamente azuis. Havia nele algo que parecia ultrapassar a própria condição humana, como se estivesse envolvido por um cosmos lunar.
Apesar dos esforços, o marido da bióloga não sobreviveu.
O rapaz participou das cerimônias de despedida e do enterro, realizado segundo antigos rituais de cristais e elementos da natureza, algo que a bióloga jamais havia presenciado.
Viúva e profundamente abalada, ela encontrou naquele jovem uma presença que parecia preencher o vazio deixado pela tragédia. Havia entre os dois uma atração inexplicável, como se já se conhecessem de outras vidas.
Naquela noite, sob a dança das estrelas e o brilho da Via-Láctea, ela se entregou àquele sentimento.
Depois de algum tempo, porém, decidiu retornar ao seu país de origem.
Partiu sozinha, levando consigo lembranças profundas daquele lugar e daquele homem que havia despertado em seu coração sentimentos que nem a ciência conseguia explicar.
Meses depois, já em sua terra natal, descobriu que estava grávida.
Algum tempo mais tarde, nasceu seu filho.
O menino era extraordinariamente parecido com o jovem guerreiro que ela havia conhecido no norte de Goiás.
A criança cresceu cercada pelo conforto e pela cultura de seu país, mas nunca conseguiu se adaptar completamente àquele mundo. Desde pequeno, falava de um lugar que ninguém conhecia.
Chamava por um portal estelar.
Durante suas meditações, fenômeno que realizava espontaneamente, a criança parecia entrar em outro estado de consciência. Em algumas ocasiões, sua mãe dizia ter visto o filho flutuar por alguns instantes. E, onde suas mãos tocavam, pequenos cristais magnéticos pareciam surgir, como se a própria matéria respondesse à sua presença.
Assustada e, ao mesmo tempo, intrigada, a mãe começou a acreditar que o filho carregava consigo uma ligação inexplicável com o lugar onde havia vivido anos antes.
Então decidiu voltar ao Brasil.
Retornou à região norte de Goiás, levando o menino consigo.
Durante sua permanência, criou novamente um profundo vínculo com aquela terra. Foi então que descobriu o nome daquele território mágico: Chapada dos Veadeiros.
Nas montanhas, entre cachoeiras, cristais e noites iluminadas por milhares de estrelas, ela reencontrou o jovem que jamais havia conseguido esquecer.
Ele estava ali.
Mais velho, mas com os mesmos cabelos cor de fogo e os mesmos olhos azuis que pareciam guardar um pedaço do céu.
Ela descobriu que ele havia formado uma família e tinha duas esposas e quatro filhos.
Então apresentou-lhe o menino.
Ao olhar para a criança, o guerreiro permaneceu em silêncio.
Como se já soubesse que aquele encontro aconteceria.
Como se o tempo tivesse apenas preparado o caminho para aquele momento.
Ele já esperava pelo filho.
A criança, finalmente, parecia ter encontrado o lugar que procurava desde o nascimento.
Hoje, a bióloga vive na Chapada dos Veadeiros. Tornou-se a terceira esposa do guerreiro e passou a viver envolvida por uma esfera plasmática de amor, mistério e descoberta.
Em seu trabalho, promove intercâmbios entre pesquisadores de seu país de origem e cientistas brasileiros, buscando compreender os fenômenos naturais, energéticos e espirituais daquela região.
Mas, acima de qualquer pesquisa, ela continua procurando algo que a ciência ainda não conseguiu explicar:
a luz que existe dentro de cada ser.
E, a cada primavera, quando as flores despertam entre as montanhas, ela contempla o céu e sente que aquela antiga jornada nunca terminou.
Talvez o portal ainda esteja aberto.
Talvez os cristais continuem guardando memórias.
Talvez as estrelas sejam apenas janelas para outros mundos.
Ou talvez tudo aquilo seja apenas a maneira que o universo encontrou para registrar, na galáxia da alma, os sentimentos que o tempo jamais conseguiu apagar.
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