Conto: O Catireiro

A desconfiança pode trazer, no translado do teu peito, o veneno adocicado do seu recado molhado e assaltado entre o trilheiro de beijos acesos.
Em tantas danças ao fogo que cativa as passadas parceladas, no Brasil, há tempos atrás, encontrava-se um belo bailarino da arte folclórica. Ele era conhecido como Tião Catireiro: moreno, de estatura alta, corpo forte, olhos verdes e cabelos anelados. Não havia sequer uma roda de catira que não tivesse conhecido a arte de Tião Catireiro.
Quando ele catirava, parecia que encarnava um deus da dança, que seduzia a todos, principalmente as mulheres que o espiavam. Elas pareciam se enfeitiçar por sua magia em fogo de bravura, e quanto mais palmas batiam, mais ele rodopiava, levantando a poeira.
Certa vez, ele passa por uma cidade comandada por um coronel, que tinha uma jovem esposa, bela como uma flor do campo. Ela era desejada pelos homens da cidade, mas qualquer um que demonstrasse isso perante o coronel era morto. Foi nessa cidade que Tião Catireiro resolveu mostrar sua arte na catira, e a mulher do coronel passou a desejar esse deus da dança. Ela ficou tão seduzida que não se aquietou enquanto não encontrou Tião Catireiro às escondidas.
E, diante da bela lua cheia, eles se agarravam e rolavam pela relva nas madrugadas. Com o tempo, porém, o coronel foi desconfiando, e, em uma dessas madrugadas, a mulher do coronel e Tião Catireiro resolvem se encontrar novamente.
Eles marcariam o encontro em um velho rancho, mais afastado da cidade. O coronel finge adormecer, ela sai, e ele a segue com seus capangas. Ela chega ao rancho, onde Tião Catireiro já a esperava. Os dois se beijam, e o coronel entra no rancho e vê aquela cena. Ele dá um grito e puxa sua arma. Tião Catireiro afina a voz, estava com um vestido da mulher do coronel, e diz ser travesti.
A mulher afirma ao coronel que não era nada do que ele estava pensando, e que os dois eram irmãos. Por sorte, Tião Catireiro tinha uma pequena marca na perna esquerda igual à da mulher do coronel.
O coronel acredita na história e vai embora com seus capangas. Tião Catireiro e a mulher do coronel sorriam muito, e fizeram amor a madrugada toda. Quando amanheceu, Tião se despede da mulher, que lhe agradeceu por tudo.
Então, Tião Catireiro pega sua arte da dança e sai pelo Brasil afora, seduzindo as pessoas e deixando seu estilo de malandro, que sempre se safa das tocaias da vida.





