Conto: Leito

Em uma terra distante, cheia de pedreiras gigantes que se destacavam da paisagem vibrante, carregava-se o tom de algo diferente — algo que contrastava com a convalescença da vida que ali respirava.
Pontas em conspiração com o universo se debruçavam naquelas longas veredas, onde o vento inerte suspirava sua travessia. Diante daquele cascalho de sorrisos vazios, havia algo que preenchia aquela terra: um pequeno riacho que lutava contra as diferenças daquela paisagem, impostas pelas pedras do destino.
A passagem do riacho por cada lacuna do caminho traçado era como um moinho de sentimentos, profundo, deixando marcas ao longo da distância. Na formação exata entre vilarejos de uma alma profética, ele se escondia no marasmo do coletivo perfeito, diante do templo do acerto guardado no acervo do mistério. Eram pequenas veias de água que perfuravam o estágio do desejo, uma amizade sem dureza, sem paredes conturbadas — apenas amada pelo companheirismo.
O riacho era insistente. Viajava bravamente, sem medo do que pudesse consumi-lo, como um colo desajeitado que aprende a ser completo. Onde a mata deixava de ser livre na miragem da vontade, ele permanecia firme — insistente e persistente.
Até que, um belo dia, surgiu a presença de uma sombra prepotente. Ela não aceitava estar à altura do riacho — queria ser mais. Nunca aceitou sua irmandade, sempre o humilhando, carregando arrogância e uma perigosa capacidade de destruição.
A terrível sombra, com sua magia sombria, seduziu a sentinela seca, que se deixou corromper por sua influência.
E assim, mostrou o quanto era perigosa: conseguiu empurrar o riacho para o canto de seu leito, tornando-o fraco e vulnerável, deixando-o angustiado por não cumprir seu destino.
Foram anos de martírio e desprezo.
Mas o riacho era paciente.
O tempo passou: 10 anos, 20 anos, 50 anos… e ele permanecia ali, firme na esperança de que algo mudaria naquela terra. Enfraquecido, quase sem forças, resistia. Até que, ao completar 100 anos, surgiu uma senhora nuvem.
Essa nuvem era diferente.
Ela não fazia parte do roteiro que sustentava a maldade daquele lugar. Veio de longe, trazendo abundância, fartura e água limpa para todos.
O riacho, já quase morto, recebeu aquela chuva como um mar de esperança. Por dias, a nuvem derramou sua força sem cessar, e ninguém ousou enfrentá-la.
E então, o riacho renasceu.
Fortaleceu-se, cresceu, expandiu-se… até se tornar um grande rio.
E, com força, declarou:
— Vou retomar o que é meu por direito.
Assim, voltou firme ao seu verdadeiro leito, derrubando todo o mal que lhe havia sido imposto.
E disse:
— Podem até me tirar do meu caminho, mas um dia eu volto para onde pertenço por natureza.
Escrito por Alexandre Guilherme
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