Alexandre GuilhermeColunaLendas

Conto: Aprovação

As provas são fórmulas ocultas nas trincas indefinidas das lendas, desenhadas em caricaturas de ruas nuas, diante de uma temperatura turva que coa a seda das estrelas, lacradas como prosas sedadas.

 

Hoje quase não se veem grandes rezadeiras, nem sequer as parteiras serenas, aquecidas pela chama das antigas tradições. Há um tempo em que o leito era também lugar de oração, e o floreto divino parecia se abrir sobre a cabeceira dos enfermos. Entre os antepassados, encontravam-se rezas de cura profética, banhos de ervas e palavras que atravessavam gerações. Lembro-me das histórias que meu avô contava sobre mulheres que caminhavam por lugares distantes levando consigo a fé, as ervas e os mistérios de uma sabedoria antiga.

 

Tenho uma vaga lembrança de quando meu avô contou que um velho amigo seu se encontrava muito doente. Procurara vários homens de branco, grandes conhecedores da medicina, mas as dores não passavam e as feridas não cicatrizavam. Era um católico ferrenho e não aceitava facilmente a opinião de outras pessoas, mas sua situação havia chegado a um ponto difícil.

 

Certo dia, esse amigo de meu avô ouviu falar de uma rezadeira muito simples, acompanhada por um grupo de discípulas. Elas trabalhavam com ervas e, por meio de benzimentos e orações, diziam descobrir aquilo que afligia as pessoas, inclusive aquilo que atribuíam a magias e malefícios.

 

Ele acabou conhecendo aquelas mulheres de uma maneira inesperada. Elas haviam vindo de longe e acampado em uma de suas propriedades, pois ele possuía muitas terras. Reuniu seus peões e foi até lá para retirá-las de suas terras.

 

A rezadeira, porém, recebeu-o com humildade.

 

Pediu desculpas e começou a recolher suas poucas coisas, preparando-se para partir com as companheiras. Ele lhes deu alguns dias para deixarem a propriedade.

 

Antes de se afastar, a mulher agradeceu e disse:

 

— O senhor é um homem bom. Não merece o que está passando.

 

Ele ficou parado.

 

Então ela começou a falar de coisas de sua vida que ele jamais havia contado a ninguém. Segredos antigos, acontecimentos familiares, dores guardadas no silêncio. Quanto mais ela falava, mais ele se sentia desconcertado.

 

Naquela noite, não conseguiu dormir.

 

As palavras daquela mulher permaneceram dentro dele como uma porta que alguém havia aberto sem pedir licença.

 

No dia seguinte, decidiu procurá-la.

 

Queria entender o que ela fazia e, talvez, descobrir se havia alguma explicação para aquilo que vinha acontecendo com ele. Contou-lhe sobre as dores, as feridas e tudo aquilo que vinha enfrentando.

 

A rezadeira ouviu em silêncio.

 

Depois, tomou um ramo de guiné e arruda e começou a benzê-lo. As outras mulheres se aproximaram e iniciaram suas orações.

 

Naquele momento, segundo a tradição daquelas mulheres, tudo veio à tona.

 

Elas disseram que alguém muito próximo dele havia desejado sua ruína. Alguém que ele amava profundamente. A pessoa teria recorrido a uma magia para destruí-lo, usando uma fotografia sua, costurada dentro da boca de uma cobra, junto a um pedaço de seu próprio cabelo.

 

A história parecia absurda aos olhos daquele homem. Ainda assim, algo dentro dele o fez continuar.

 

Dias depois, encontrou a cobra.

 

E, dentro de sua boca, estava sua fotografia, costurada junto a um pedaço de cabelo.

 

A partir daquele momento, submeteu-se às rezas, aos banhos de ervas e aos cuidados das mulheres. Pouco a pouco, as dores começaram a desaparecer. As feridas finalmente cicatrizaram.

 

Mas a cura trouxe consigo uma dor ainda maior.

 

Ele descobriu que tudo aquilo teria sido mandado fazer pelo próprio filho, seu único filho, a quem amava acima de qualquer coisa.

 

Viúvo havia muitos anos, aquele homem jamais imaginara que o mal pudesse partir de seu próprio sangue.

 

A descoberta o destruiu por dentro.

 

Depois, soube que tudo aquilo estava relacionado à sua fortuna. O filho desejava as terras, os bens e tudo aquilo que ele havia construído durante uma vida inteira de trabalho.

 

Foi então que tomou uma decisão que ninguém esperava.

 

A terra onde as rezadeiras haviam acampado foi doada a elas, para que ali construíssem um templo dedicado à cura, à oração e à caridade.

 

Sua imensa fortuna, porém, ele entregou ao próprio filho.

 

Não como recompensa.

 

Talvez como perdão.

 

Talvez como a última tentativa de ensinar ao filho que o amor de um pai pode sobreviver até mesmo à maior das feridas.

 

Depois disso, abandonou sua antiga vida e recolheu-se a um simples convento de formação de São Bento. Deixou para trás a família, os negócios, as terras e a história que havia construído.

 

Seu filho, agora dono de uma imensa fortuna, não suportou a presença das rezadeiras na propriedade que havia herdado. Mandou expulsá-las e ateou fogo ao local onde elas haviam começado a construir o templo.

 

Sem ter para onde ir, as mulheres foram acolhidas no convento de São Bento.

 

Ali encontraram abrigo.

 

E, junto daquele homem que havia perdido quase tudo, continuaram caminhando.

 

Não carregavam riquezas.

 

Não carregavam terras.

 

Não carregavam poder.

 

Carregavam apenas suas ervas, suas orações e a certeza de que algumas coisas não podem ser destruídas pelo fogo.

 

Porque há uma aprovação que não vem dos homens.

 

Há uma aprovação que nasce do silêncio, atravessa a dor e encontra morada na alma.

 

E talvez tenha sido essa a última lição daquele velho homem: perdoar não significa esquecer o mal que nos fizeram. Às vezes, perdoar é simplesmente deixar de permitir que o mal continue vivendo dentro de nós.

 

Escrito por Alexandre Guilherme

 

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